sábado, 12 de agosto de 2017

A MEDIDA DE TODAS AS COISAS


Quando eu tinha cinco anos, me lembro de comprar umas balas só porque no papel vinha uma pequena frase descritiva de cada signo do zodíaco. Eu devia ter uns sete anos, quando li o primeiro horóscopo nas páginas finais de uma dessas revistas de fofocas. Descobri que nos jornais também havia esses horóscopos, e o mais interessante nessa época era que ali num bar próximo da minha casa, jogando fliperama eu notava a seguinte cena: todo leitor do jornal, quando chegava na parte do horóscopo, dava uma olhada a sua volta, disfarçava um pouco e rapidamente corria os olhos para ler a previsão do seu signo. Eles tinham vergonha. Ou medo. Concluí naquele momento que as pessoas tinham a mesma curiosidade que eu, mas diferente de mim, elas tinham vergonha disso. “Por que ler o horóscopo era motivo de vergonha?” - me perguntava, enquanto jogava Street Fighter.

Por essa mesma época, fui a primeira vez à biblioteca municipal para fazer trabalho da escola. Da para notar que eu sempre fui muito curioso e observador, então é óbvio que fiquei mais vasculhando e conhecendo cada canto da biblioteca do que me concentrei no trabalho. Foi então que encontrei lá uma sessão de prateleiras classificada de “Esoterismo”. Eu já escrevi sobre ela aqui. Lá tinha livros que iam de astrologia à numerologia; de yoga à meditação; de chackras à terapias alternativas. Tinha livros que discorriam sobre a origem do fascínio do homem pelos oráculos e práticas adivinhatórias e autoconhecimento. Livros sobre ervas medicinais. Sobre mitologias e folclore brasileiro. Livros que alertavam sobre a importância de trazer mais espiritualidade para nossa vida, demasiada materialista. Eu adorava essa biblioteca e toda vez que íamos para lá, dava um trabalho para me tirar daqueles corredores pois sempre tinha alguma coisa que eu queria ler. Quero lembrar que isso foi a mais de vinte anos atrás, não existia Google. Poucos tinham acesso à internet. Computador era artigo de luxo, era caro, a maioria das pessoas não tinha e as pesquisas eram feitas em bibliotecas com auxílio dos livros e escritas naquelas folhas de papel almaço. Mas eu não me importava com isso, pois eu via naquelas prateleiras conhecimentos que, por algum motivo, ao longo do tempo foram se perdendo da humanidade e caindo em descrédito. Quando eu lia sobre práticas de medicinas alternativas por exemplo, mesmo eu sendo muito criança, aquilo já me fazia muito sentido, e eu já pensava que tinha algo de errado no caminho escolhido por nós até então. Acredito que hoje exista um movimento interessante e  noto que alguns já perceberam que tem algo de errado com essa economia desequilibrada; com esse sistema capitalista desenfreado, onde as contas nunca fecham; com essa nossa resistência de olhar para dentro de nós mesmos e refletir questões pessoais; sem falar num número alarmante de casos de transtornos e doenças mentais que só cresce a cada ano. Alguns estão “despertando” e buscando práticas e conhecimentos antigos.

Desde o início dos tempos, o homem teve ao seu alcance os quatro elementos principais para manipular: o fogo, a terra, o ar e a água. A medida que seu conhecimento aumentava sobre a manipulação desses elementos, ele ia desenvolvendo seu entorno e criando novas técnicas, novas ferramentas, mas tornou-se uma relação de poder e domínio. O homem se tornou um deus de si, ele se colocou no centro e dominou o resto, deixando a natureza a mercê de suas necessidades. Mas essa relação nem sempre foi assim... Alguns povos indígenas, aborígenes, alguns pajés, xamãs, todas essas tribos mantiveram ou mantém até hoje uma relação diferente com a natureza. Eles se veem como parte do entorno, onde homem e natureza são indivisíveis, eles respeitam a natureza porque já se veem como natureza. É interessante ler relatos da forma como alguns nativos desses locais pedem licença à floresta para caçar, pescar ou colher; como agradecem cada alimentação e só retiram o suficiente para saciar a fome, dando o tempo necessário para um local se regenerar. No xamanismo por exemplo, entende-se que existe um elo entre o mundo espiritual e o mundo material, e os xamãs creem em espíritos da natureza que não só os protegem e os curam, mas sempre lhes proverão o necessário. Vejo nessas culturas beleza e uma riqueza de aprendizado pois vivem em harmonia com o meio. Transcenderam valores que as sociedades modernas ainda não. Tinha um professor de biologia que nos falava que o homem era um vírus no planeta Terra, e este, como todo organismo, está lutando contra a ameaça invasora. E o aquecimento global seria um dos sintomas, porque a febre é a forma do organismo lutar contra a ameaça, elevando a própria temperatura. Eu sei que é uma analogia grosseira, ficcional, mas ela nos proporciona boas reflexões.

Agora abro um parênteses interessante sobre a origem da nossa relutância em aceitar ler ou ouvir sobre conhecimentos pouco ortodoxos e práticas tidas como pseudociências. Primeiro porque no movimento antropocêntrico, o homem se colocou como um deus e assumiu a ciência, sua ferramenta-mãe, como sendo aquilo que ele pode aferir e provar inequivocamente com seu racionalismo iluminista, e todo o contrário disso foi rebaixado a um pseudoconhecimento. Segundo porque existe algo chamado Igreja, muito poderosa na Idade Média, que criou nessa época uma máquina de moer pessoas “indesejáveis”, ela chamava-se Inquisição. Qualquer pessoa minimamente diferente ou com ideias que contrariassem o status quo era acusada de herege, bruxa, satanista e sua sentença era a morte. Óbvio que isso gerou um medo coletivo. Esse medo está enraizado no nosso inconsciente até hoje. Assim como o preconceito. Por isso os leitores do jornal na minha infância tinham vergonha de serem vistos lendo o horóscopo, eles poderiam ser taxados de inúmeros adjetivos; por isso quase ninguém frequentava a sessão de esoterismo da biblioteca, tinham vergonha de serem vistos por lá. Esoterismo virou sinônimo de práticas ocultas voltadas para o mal. As pessoas sempre associam a algo negativo. E só estão reproduzindo o preconceito.

Toda vez que ouvimos que alguém tem uma religião diferente, como o candomblé ou a umbanda por exemplo; que se submete a algum tratamento de saúde alternativo, como o reiki, a homeopatia, a acupuntura; que busca autoconhecimento através da realização do seu mapa astral ou numerológico; automaticamente olhamos para essa pessoa de forma diferente, enxergando muitas dessas práticas como algo negativo, prejudicial ou errado. Mesmo embora algumas dessas mesmas práticas já foram até incorporadas aos tratamentos ofertados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Nota-se portanto que o que é considerado correto ou incorreto, positivo ou negativo, saudável ou prejudicial não é só uma questão de opinião, como também do tempo em que uma sociedade está. Os mesmos pensadores e cientistas de séculos atrás, que hoje elogiamos e referenciamos, muitos se intitulavam como astrólogos também. Muitos desenvolveram estudos místicos sobre a influência dos números. Eram pagãos. Os médicos chegavam a fazer o mapa astral do paciente para poder consultá-lo melhor. Diz-se que astrologia chegou a ser uma disciplina da medicina. De tudo o que já li a minha vida toda sobre esoterismo, vejo que a principal força motriz nunca foi outra senão conhecer a si próprio. O objetivo primordial é o autoconhecimento. Seja a astrologia, seja a numerologia, ou o tarot, o xamanismo, a wicca, a meditação, a yoga, a maçonaria, seja qual for, tudo se trata no fim de um voltar-se para o interior; são práticas de desenvolvimento pessoal através do autoconhecimento, com um intuito de se tornar um ser humano melhor. Todas essas práticas enxergam o homem na mesma visão do alquimista, como sendo ele ao nascer uma pedra bruta, ignorante, sem luz, que aos poucos lapidará sua evolução através do seu autoconhecimento.

A minha aposta para os próximos anos é que cada vez mais as pessoas procurarão conhecimentos e tecnologias considerados hoje alternativos, para uma qualidade de vida melhor. E isso já está acontecendo em alguns cenários! Principalmente no oriente. É o executivo que reserva alguns minutos do dia para uma meditação. Ele come produtos orgânicos e pratica yoga. Ele já fez o seu mapa astral e numerológico, então ele sabe quais são os seus pontos fortes e os pontos que precisa trabalhar mais, assim como ele sabe quais setores da vida tendem a serem mais críticos. Ele sabe qual é o seu dosha. E ele faz algum tipo de terapia. Essa é a minha aposta não só porque eu acredito fielmente nisso, como porque eu ainda vou trabalhar com isso! É o meu projeto de vida. Ter um espaço, que reúna vários ensinamentos de diversas culturas, que eu já li ou me aproximarei ao longo da vida, que perpassará a dança, a culinária, a medicina, a estética, com o objetivo de encontrar um caminho de equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Trabalhos individuais ou em grupo, mas personalizados para cada indivíduo! Que seja capaz de fazer, primeiramente, essa pessoa se ver, se perceber, se conhecer, aprender a se equilibrar, então aprender a sozinha se desenvolver. Um espaço que a ensine os primeiros passos possíveis, com base numa análise pessoal, e depois ensine essa pessoa a redesenhar sozinha, se redescobrindo, se reinventando e se desenvolvendo continuamente. Porque nós somos como elásticos ao nascer, nossa capacidade de expandir é uma condição natural.

terça-feira, 18 de julho de 2017

A IRA NOSSA DE CADA DIA

Nunca soube distinguir muito bem minhas emoções. Só uma delas sou capaz de identificar perfeitamente. É a raiva. A raiva é uma velha conhecida que sempre me visita. Há momentos que sou consumido por ela. Venho notando quando ela brota e aprendendo também a beber e a me alimentar dessa fonte. Quando percebi quando a raiva me visitava e que poderia me nutrir dela muita coisa mudou. Antigamente por não saber lidar com esse sentimento agia descontroladamente. Impulsivamente. A raiva é um sentimento tão forte, sorrateiro e traiçoeiro quanto uma paixão, ambos nos cegam e nos impedem por vezes de enxergar os fatos e agir com a razão. 

Em muitos momentos quando via já tinha pedido demissão. Quando me dava por mim já tinha explodido e vomitado críticas que estilhaçavam os alvos. Parava quando via as lágrimas caindo, era o sinal que havia chegado onde queria. O estrago era sempre devastador. Era como um furacão, ia deixar um rastro por onde passava. Me julgava alguém muito errado, muito perdido, um descontrolado, porque num minuto calmaria, no minuto seguinte erupção. Mas achava que era coisa da idade, um comportamento de adolescente: calça rasgada, correntes, rock, bebidas e hormônios à flor da pele. Só que o tempo passou e mesmo hoje ainda sinto os sinais.

Hoje sinto vergonha de me perceber raivoso, que me tornei mais contido. Aprendi a disciplinar meus sentimentos até a mascara-los. É engraçado, mas quanto mais incomodado hoje eu estou com uma determinada situação menos as pessoas notam. Não me sinto a vontade se leem nos meus olhos o que se passa na minha mente. Olhando o passado me envergonho quando lembro das coisas que fiz quando com raiva. Algum tempo convivendo com uma pessoa bastava para identificar qual seria seu ponto fraco e era nesse ponto que atacaria para aleijar a vítima. Brigas com professor, com chefes, com meus pais, com colegas de trabalho ou amigos... Tenho certeza que magoei profundamente algumas pessoas. Mas na mesma proporção em que me senti magoado. Em que me senti atingido ou diminuído. Aí estaria o “x” da questão: eu não aceito ficar por baixo. Meu pecado capital sempre foi o orgulho. Sou vaidoso. Não suporto desprezo de algumas pessoas ou ser diminuído, não levo na esportiva qualquer descortesia. E é antiga a origem dessa dor... 

Na minha infância havia uma pessoa que me desprezava e me diminuía muito. Era o meu pai. Bastante mestre nisso. O melhor de todos eu diria. Me dava muita raiva sentir seu descaso por mim e ainda mais raiva saber que ele jogava comigo, porque eu percebia que ele me amava mas usava desse artificio para me “motivar”. Como ele logo cedo notou que eu não gostava de sua desfeita, era nesse ponto que ele me pegava e eu toda vez caía como um patinho. Fazia de tudo para ganhar o seu amor. Fui o aluno mais inteligente; tinha a caligrafia mais bonita; fui o filho mais educado e obediente; ganhei medalhas em competições de corrida e em olimpíadas de matemática para chamar a sua atenção; procurei ser um ser humano perfeito para assim quem sabe conquistar o seu amor, a sua admiração, o seu respeito. E ele retribuía sempre com descaso. E mesmo eu sabendo que aquilo era dissimulação, mesmo eu sabendo que ele só estaria jogando comigo para me fazer me dedicar e me esforçar mais às coisas, aquilo me afetava muito. Aquilo me golpeava em cheio. Para mim ele parecia um sádico e eu um tolo tentando conquistar o seu apreço. Encontrei um vídeo no YouTube que me emocionou muito quando assisti, porque de certa forma vi minha relação com meu pai nele. Quem quiser assistir segue abaixo.


Quando atingi a maioridade ele faleceu e desde então venho aprendendo a lidar com esse sentimento de rejeição mal resolvido. Busquei técnicas para aquietar a raiva que me consumia. Aprendi a meditar. A respirar melhor. A perceber os momentos de gatilho. Aos poucos fui buscando na humildade e na humanidade aceitar minhas fragilidades e a compreender as minhas falhas – e também as dos outros. Tem sido um exercício custoso, lento e diário. Afirmo que já tive progresso. Ainda me importo bastante em provar o meu valor. De tempos em tempos escolho um para provar meu potencial e obter dessa pessoa reconhecimento. Mas quando por algum motivo sou desprezado – ou capto dessa forma – uma dor antiga se avizinha e a raiva é o subproduto desse processo. Me parece claro que se trata aqui de um mecanismo inconsciente onde projeto a figura do meu pai nessas pessoas e procuro encontrar nelas um reconhecimento pessoal, para me sentir amado. Como se o “aceite” dessas pessoas fosse mais importante que o meu próprio. Ninguém ganha com isso.

Através de uma postura virtuosa, reta, digna, responsável, íntegra, irretocável, imagino que estou fazendo a minha parte e “alguém” está vendo. E esse “alguém” vai me aceitar. E aí vem outro problema: não ser capaz de sustentar as 24 horas do dia essa postura virtuosa, porque, embora esqueça, sou humano, falho e imperfeito. Então errar também termina me  gerando raiva, pois acredito – inconscientemente – que se não for perfeito não serei aceito. Eu sei que falar parece fácil, assim como dá a impressão de que estou no controle desse processo, mas como é inconsciente na maioria das vezes, quando me dou por mim essa cena toda já se reproduziu novamente, e novamente, e novamente. Me dou conta no resultado disso. É claro que com a maturidade e o autoconhecimento percebo mais rapidamente os gatilhos e, às vezes, antecedo às consequências. Mas o interessante de tudo é que tenho que assumir que apesar da imensa raiva que meu pai me fazia sentir, de fato ele me motivava intensamente também. Percebo que a raiva pode ser devastadora mas ela é capaz também de nutrir. A raiva pode nos dar o gás necessário para avançar. E de um tempo para cá estou empenhado nisso, numa estratégia de usar toda essa explosão de energia de forma canalizada. É então quando me supero na corrida. Quando trabalho em estado de flow. Quando sou capaz de criar. Quando venho aqui e escrevo um novo texto. Esse processo de escrever sobre meus traumas e fantasmas não é só artístico. É terapêutico.



quarta-feira, 5 de julho de 2017

COISIFICAÇÃO


A imagem escolhida para esse texto representa bem o tema, ela foi retirada de uma animação que encontrei no YouTube e colocarei ao final desse texto para quem quiser assistir. Recomendo bastante, é uma animação forte, pra fazer pensar.

As pessoas no geral estão tão ocupadas com tarefas a fazer, andando pra lá e pra cá, no corre corre do dia a dia, que estão passando despercebidas umas das outras e até de si mesmas. É tanta coisa para fazer: trabalhar; cuidar da casa; se preocupar com o que comer; se preocupar em estudar ou se manter atualizado; em fazer supermercado; pagar conta; e tem o trânsito do dia a dia, as filas, o estresse constante. Vamos fazendo todas essas coisas com um senso de urgência, com a sensação de que está ficando algo para trás que no fim não vai dar tempo de fazer. Eu me observo assim. Eu observo as pessoas assim. Estamos vidrados em nossa rotina, ocupados com a nossa vida, que transitamos não nos vendo, não nos ouvindo, não nos percebendo. Perguntamos como estamos por educação, porque duvido muito que importa sinceramente a resposta que virá logo após essa pergunta. As relações estão superficiais e os contatos breves, com pouco ou nenhum aprofundamento reflexivo ou sincero. Esse senso de urgência com as nossas coisas, somado a um excesso de importância e valorização só com a nossa vida tem nos feito individualistas, menos conectados uns com os outros. Quase como se fôssemos perfeitos estranhos, seres maravilhosamente invisíveis. Estranhos que se veem e se relacionam constantemente, mas ao final dos encontros permanecem estranhos.

Desafio você a se questionar com quantas pessoas você tem um relacionamento, seja ele de que natureza for, realmente com conexão. Conexão que eu digo é quando você realmente “está” com uma pessoa e “sente” que ela também “está” inteiramente com você. Falo aqui de presença; de profundidade; de identificação com o outro. Confesse, são raros esses momentos. Assim como são raras as pessoas com quem você se sente assim dessa maneira. Você não deve se sentir assim nem consigo mesmo. No geral, somos apenas gentis, protocolares nos “bom dias”, superficiais nas relações diárias e, sem perceber, estamos ausentes, porque ouvir não é a mesma coisa que escutar; ver não é o mesmo que enxergar. A capacidade mais empática e natural dos humanos é sentir uns aos outros, conectar, mas estamos perdendo essa capacidade. Existem pesquisas que tentam mostrar uma espécie de “coisificação” acontecendo. Esses estudos defendem uma tese de que há um processo de “coisificação” no mundo contemporâneo, onde estaríamos perdendo a capacidade empática e transformando quem não é importante para nós em uma “coisa”. As mesmas pesquisas foram feitas com crianças e os resultados impressionaram pela incapacidade que elas tinham de reconhecer e identificar expressões faciais básicas. Característica típica de psicopatas. Isso se explicaria por que você passa hoje por um mendigo deitado na calçada com um cobertor fino, nessas noites que você sabe o quanto está frio, e você quase não sente nada. Não é consciente, mas você “naturaliza” essa cena; você olha e não vê uma pessoa ali deitada e isso não te afeta mais. Poderia se dizer que você não mais percebe, quiçá se importará, se sob aquele pedaço de pano estaria de fato uma pessoa, porque ela não lhe é importante.

Será que não deveria nos afetar, muito, numa noite fria como essa de inverno em que estamos, nos deparar com um morador de rua? Será que não deveria nos afetar, muito, aquela criança pequena pedindo que vemos no farol pelos vidros erguidos do carro? Por que será que a gente não pensa se ela estaria com fome? Se almoçou ontem; se teria onde dormir hoje; se sofreria algum tipo de abuso ali nas ruas. A resposta é assustadoramente simples: a gente não pensa porque essa criança foi “coisificada”, como ela não nos é familiar, ela não nos é importante, assim não é vista, literalmente; é como se ela se mesclasse à paisagem. Assim como o mendigo. São tristes exemplos de como estamos insensíveis ao outro. Embora não admitimos, a nossa filosofia básica de vida é a seguinte: “primeiro eu, depois os meus, o que sobrar aos outros”. O mundo atual é confeccionado sob uma filosofia tão superficial e imediatista, com valores por vezes psicopáticos, onde estamos tão atarefados, bitolados e super valorizando nossa própria individualidade (“minha vida, minhas coisas, meus problemas”), que estamos não só perdendo a noção da existência do outro, como não legitimando a sua importância, a sua dor. E isso não é só triste e preocupante, isso é perigoso até. A sociedade só chegou onde chegou, como sociedade, pela nossa capacidade altruísta e empática de nos colocarmos uns no lugar dos outros, sem essa capacidade é impossível pensar sociedade. É difícil imaginar qual seria uma resposta para esse movimento, mas arriscaria pensar que, se estamos seguindo um fluxo como rebanhos num processo quase automático, foi por que aprendemos assim, e talvez a solução fosse parar em alguns momentos e tentar trazer consciência às nossas ações. E sempre que possível reavaliar nosso comportamento e revalidar a nossa visão de mundo dando mais atenção e importância às necessidade daqueles que estão ao redor, seja esse outro quem for, já que o outro nunca deixou de ser uma extensão de nós mesmos. É uma questão de se permitir.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

PONTO CEGO

Michelangelo, David (detail of back), 1501-04

Acho que ainda não comentei aqui que faço uma pós graduação em Psicologia Organizacional. Faço um MBA em Recursos Humanos e recentemente iniciei outra especialização em psicologia. E como já era de se esperar há algumas disciplinas com bastante conteúdo dessa área, envolvendo reflexões e alguns 'debates internos'. Na última aula de Teorias Psicológicas e da Personalidade, o professor, um psicólogo experiente, trouxe-nos um teste chamado Janela de Johari. Apesar de eu já ter feito inúmeros testes, esse desconhecia e a princípio lhe dei pouca importância. O professor solicitou então que fizéssemos o teste e ao terminá-lo fiquei bastante impressionado e surpreso com o seu resultado, porque eu esperava algo completamente diferente. 

O teste é até antigo, foi desenvolvido por dois psicólogos norte-americanos chamados Joseph e Harrington, na década de 50, por essa razão leva a composição de seus prenomes. Ao pesquisar um pouco mais sobre esse teste, descobri que ele é bem utilizado nos dias atuais em processos de coaching e mentoring por exemplo, e confesso que me incomodou um pouco desconhecê-lo. E é aí nesse ponto, com esse toque de vaidade minha, que venho dividir meu resultado. “Como eu que estudo sobre autoconhecimento, que já fiz inúmeros testes de personalidade e afins, que procuro me manter sempre atualizado sobre práticas empresariais, nunca me deparei com esse teste antes!?” – me indagava em sala. Eu sei que estou sendo vaidoso, até arrogante, por simplesmente não aceitar desconhecer algo perfeitamente possível a qualquer um, mas é exatamente isso que apontou no meu teste.


Acima está uma imagem das áreas desenhadas quando uma pessoa conclui o teste, e essas áreas vão diferir de tamanho para cada pessoa que o fizer. Encontrei um vídeo no Youtube que explica e exemplifica bem a dinâmica da Janela de Johari e vou colocá-lo logo abaixo, quem se interessar poderá conferir, mas vou explicar um pouco aqui também. Como se pode perceber na imagem, formarão-se quatro áreas denominadas assim: aberta, oculta, cega e desconhecida. Todas as áreas constituem a nossa personalidade, porém as duas primeiras são pontos de conhecimento nosso, as duas últimas de conhecimento dos outros, mas o interessante é como se dá esta dinâmica. Na área aberta nós e os outros temos conhecimento; na área oculta apenas nós; já na área cega apenas os outros têm conhecimento a nosso respeito; e a última área é desconhecida por todos. Em cada área se encontram características de nossa personalidade das mais variadas, assim como talentos e aspectos que são desconhecidos ou até negligenciados. Acredito então que já dê para presumir qual das áreas ficou maior quando fiz o teste. Exatamente, e foram duas: as áreas cega e desconhecida. Ambas ficaram praticamente do mesmo tamanho, porém a área cega ainda ficou um pouco maior que a desconhecida. Muito diferente das outras duas, de meu conhecimento, que ficaram bem pequenas.


Era meu aniversário nesse dia que fiz o teste, estava completando vinte e nove anos, então imaginem a minha perplexidade ao receber um resultado como esse de presente. Como podem perceber também, eu até cheguei a publicar na postagem anterior de comemoração que possuo hoje um conhecimento mais amplo sobre mim mesmo –  mas será verdade? A ficha demora sim um pouco a cair, porque, como o próprio resultado demonstra, obviamente não percebo. O indivíduo que faz o teste Janela de Johari e seu resultado termina mostrando que a área cega ficou maior, como foi no meu caso, significa que esse indivíduo não tem recebido um feedback importante das pessoas que o cercam, seja no trabalho ou na vida pessoal, porque muito provavelmente ele está 'fechado' demais e não dá abertura para críticas, conselhos ou recomendações. Provavelmente, as pessoas ao seu redor percebem comportamentos, tendências, competências, características, vícios, que o mesmo ainda não se deu conta, seja por vaidade, arrogância, egocentrismo, medo, não teria como saberem ao certo. O fato é que estando 'fechado' para os outros, ele quem se cega, enquanto os outros o veem claramente. Com isso perde boas oportunidades de identificar 'gaps' e se melhorar e descobrir em si talentos e habilidades que os demais já notaram. Não posso deixar de registrar aqui também a minha surpresa com a área desconhecida do teste, a parte de minha personalidade que nem eu nem outros têm ciência. Os behavioristas que me perdoem, mas essa área diz respeito ao inconsciente, que parece estar ocupando boa parte de minha personalidade. Para acessar o inconsciente precisamos que seu conteúdo se torne consciente e isso é complexo, nossa mente tem barreiras e algumas penso que são para nos proteger em dado momento da vida. De acordo com o nosso professor, o nosso inconsciente dá sinais por alguns caminhos, seja através de sonhos, em uma hipnose, num estado de embriaguez ou através de comportamentos em circunstâncias extremas quando mal pudemos pensar e agimos instintivamente.

Sinto como se desde sempre estivesse andando por aí parcialmente nú, com a crença de que estava inteiramente vestido, e fico imaginando quais partes estariam à mostra para os outros. Penso que esse resultado chegou numa boa hora, capciosamente no dia do meu aniversário, como um presente da vida que inaugura uma nova etapa, talvez um convite para uma descoberta mais íntima sobre mim mesmo. Estar mais receptivo aos outros. Confesso que no fundo dá medo, porque desta vez tenho certeza que nadarei por águas pesadas, profundas e desconhecidas, mas também me sinto preparado, e bastante excitado para dar esse mergulho.



sábado, 3 de junho de 2017

E AGORA, JONAS?

Hoje, 03 de junho, estou completando vinte e nove anos. Há algum tempo venho tendo pensamentos e percepções interessantes a respeito da vida e em particular sobre mim mesmo. Sabe aquela máxima que diz que a partir de uma certa idade as fichas vão caindo? Isso é verdade. Acho que nunca constatei isso de maneira tão clara quanto venho notando. Ter vinte e nove anos não é muito nem pouco, mas é um período suficiente para começar a responder perguntas de forma mais concreta. Sabe aquelas perguntas? Quem eu sou; o que eu quero; para onde eu vou; essas perguntas se tornaram reflexões mais consistentes, profundas e pesadas para mim. Ao ponto de não estar sendo fácil encarar isso.

Do ponto que me encontro hoje, sinto como se perdesse o mapa e já não soubesse exatamente qual caminho vai me levar aonde quero chegar. Mas no entanto sei que voltar não faz mais parte do caminho também. Não me sinto perdido porque sei onde quero chegar, eu só não sei como ir até lá, não tenho mais mapa. Não tenho mais aquelas certezas, aquelas desculpas, aquelas expectativas de antes, e no entanto tenho um medo e uma insegurança constantes, porque ocorreu algo que me surpreendeu; apesar de me sentir poderoso, maduro, com energia e conhecimento suficientes para avançar, a contra partida tenho uma consciência tão clara de que a escolha será minha em absoluto. O que estou tentando explicar é que, até aqui, levei uma vida com uma crença de que eu não era bem o responsável pelo que acontecia comigo, havia sempre uma “força maior” regendo a autonomia dos fatos e eu, dentro das possibilidades, fazia a minha parte. Quando olhava para trás e via as dificuldades que tive na minha infância, culpava meus pais pela criação que me deram. Das pessoas que me distanciei, culpava ora o destino que não quis mais que permanecêssemos juntos, ora culpava as próprias pessoas que não facilitaram nosso convívio. Pois se a minha vida rumou até aqui, houve uma razão maior para isso. “Meu pai me moldou”, “o sistema capitalista me restringiu”, “o professor dificultou as coisas”, “Deus quis assim”, “o governo..., o chefe..., o amigo...”, “estive de mãos atadas nessas circunstâncias”, “mas eu fiz a minha parte”. Mas sabe do que mais? Hoje eu já não enxergo mais as cordas que me amarravam, que desconfio se elas um dia existiram e suspeito que deve ter sido eu quem as colocou.

Até que ponto criamos e alimentamos nossas próprias crenças? É difícil admitir que não alcançamos o que queremos por nossa vontade, porque nos conforta sermos guiados. Falamos de protagonismo social, de sermos agentes de nossas vidas, mas na prática são poucos os que de fato estão presentes, porque viver a vida, estar realmente nela, implica num exercício de força, primeiramente física, é uma verdadeira luta! O corpo nasce brigando com a própria gravidade para se manter em pé. Ser uma pessoa, ter atitude, estar no momento presente, se exercendo como se é, é a maior dificuldade na vida. De fato, o que nos impede de ser ou chegar onde queremos? A única coisa entre a matéria e o espaço, é o tempo. Alimentamos uma matrix porque a realidade é dura demais para suportarmos. Hoje me sinto mais forte, mais maduro com vinte e nove anos, e ao mesmo tempo mais receoso e inseguro do que nunca, porque depois de um tempo encarando meu carrasco nos olhos, percebo que ele se parece muito comigo e já não dá mais para negar isso. E agora?



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

JUSTIÇA



Sempre que me deparo com uma situação em que preciso decidir alguma coisa, procuro primeiramente verificar se estou sendo neutro, para depois tentar ser justo comigo e com os que serão afetados pela minha decisão. Não é uma tarefa simples, porque, via de regra, o que parece justo a uma pessoa nem sempre é para outra. As pessoas são diferentes e possuem contextos e históricos de vida diferentes e isso implica no que elas julgarão como certo ou errado, em determinado momento ainda, pois elas podem mudar de opinião. Acredito então que para ser “justo” são necessárias basicamente duas coisas: um parâmetro racional e um coração puro. 

Quando possuímos um parâmetro racional é mais fácil decidir. Um parâmetro racional é compreendido por todos da mesma forma. Imagine um salão com diversas mesas e em cada mesa há duas crianças sentadas, uma de frente para a outra. Em cada mesa existem números desenhados. Começa a brincar aquela criança que se senta de frente para o número desenhado corretamente no centro. Verifica-se que em uma dessas mesas gerou-se um conflito, porque para uma das crianças se vê o desenho de um 6 e para a outra criança desta mesma mesa esse número se parece com um 9. É difícil saber qual criança começará a brincadeira pois ambas estão corretas, quando observam o desenho de seu ponto de vista. Agora vamos supor que para esses casos exista desde o começo a seguinte regra: “Ao observar números com duplo sentido, começará a brincadeira quem estiver vendo o número maior.” Foi estabelecido um parâmetro racional! Diante disso já temos como saber quem começará a brincadeira. O que eu descrevo aqui como “parâmetros racionais” são as regras do jogo. As leis estabelecidas. As convenções. As políticas. Os limites previstos entre os envolvidos para demarcar onde começarão e terminarão seus direitos e deveres. Assim sendo, os parâmetros devem sempre ser as primeiras ferramentas a se recorrer quando pensamos em agir com justiça.

No entanto, agora imaginemos a seguinte situação. Seguindo ainda o exemplo acima, imagine que numa das mesas existe o desenho do número 8! Ambas as crianças desta mesa estarão de frente para o número desenhado corretamente. E desta vez ambas estarão vendo o mesmo número, não há maior ou menor. Quem pode começar a brincadeira, quando os parâmetros disponíveis não solucionaram a questão? Toda essa estória que criei pode ser um simples exemplo, mas acredite, na vida real existem muitas leis (regras, normas, políticas etc.) que não dão conta de equacionar satisfatoriamente todos os conflitos, porque, via de regra, somos seres humanos. Somos muito diferentes entre nós mesmos e não seria possível todos os parâmetros disponíveis, por mais bem pensados que sejam, darem conta da infinidade de conflitos que podem surgir das nossas relações. Por esse motivo as leis são constantemente revistas e atualizadas.

Em alguns momentos da minha vida, quando preciso decidir alguma coisa e os parâmetros disponíveis para a situação são nebulosos ou não me auxiliam objetivamente, verifico antes de mais nada como anda o meu coração. Sei que esse é um momento em que eu terei que decidir, estará em minhas mãos. Será preciso neutralidade. Imparcialidade. Responsabilidade pela minha decisão. Preciso me despir de meus preconceitos e sentimentos até. Confesso que não gosto muito desse papel porque sinto que sou eu quem está definindo algum futuro, quando minha decisão pode afetar significativamente a vida de outra pessoa. Mas eu aceito o que cabe a mim fazer, porque sei que são situações que acontecem e faz parte. Quando me utilizo de parâmetros é mais fácil porque não sou eu quem decidiu, foi a “lei”. Se me valho do meu entendimento a cerca da questão para equacioná-la, exige-me um coração puro e nesse caso existe uma lei maior me vigiando, a do Universo. Uns chamam de Lei do Retorno. Outros de Lei da Atração. Eu chamo de  Lei Divina. Essa eu tenho cisma. Tenho medo. Essa eu tomo muito cuidado... porque diferente da dos homens, essa não falha.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A ESCALADA DA VIDA



Fim de ano pra mim é sempre momento de reflexão. É aquela hora que eu olho para trás e dou uma visualizada em cada mês. Só que neste ano tenho olhado mais longe; tenho visualizado os últimos anos. Para ser mais preciso desde 2008.

O ano de 2008 foi um divisor de águas na minha vida. Em 2008 eu comecei a trabalhar com carteira profissional assinada; criei esse blog; retomei os estudos; concluí o ensino médio; prestei vestibular e me sentia literalmente iniciando a escalada de uma grande montanha. A escalada da vida de um homem! Até esse ano eu me sentia meio adolescente ainda. Eu sempre trabalhei, tinha meio próprio dinheiro e até era responsável, mas eu não tinha compromissos. Era responsável ao sabor do meu humor, não era comprometido com nada e com ninguém. Detestava a ideia de me comprometer ou criar e gerar expectativas. Por não gostar do método de ensino da escola, eu parei de estudar. Se em algum momento eu me aborrecia com um emprego, eu pedia as contas e saia no mesmo dia. Eu não tinha encanação com nada. Se me estressava muito, tchau. Pegava minhas coisas e sabia exatamente onde estaria a porta. E ia sem olhar pra trás. Quantas vezes não fiz isso...

Só que em 2008 já não tinha mais meu pai. Eu era o homem da casa. Pessoas dependiam de mim e esperavam a minha decisão para saber o que fazer. Você apertar a tecla do “foda-se” quando sabe que haverá alguém por trás para segurar a barra é uma coisa. Quando você sabe que você é a barra que outros estão segurando a situação muda completamente de figura. Então senti o peso da responsabilidade de se manter uma família. Percebi que era hora de entregar a minha carteira profissional pra alguém assinar. Aí entendi o que significava assinar um contrato de trabalho! Procurei o EJA (Educação de Jovens e Adultos), concluí o ensino médio, pouco tempo depois estaria assinando o contrato da faculdade. Esses processos me fizeram refletir que o meu maior medo era “assinar” as coisas, porque a minha “assinatura” era como uma promessa de comprometimento. Eu não entregava a minha carteira profissional para assinarem porque eu sabia que haveria todo um processo para sair caso eu quisesse e eu fugia de vínculos complicados. Eu gostava de tudo que era “simples para entrar e mais simples ainda pra sair!”.

Durante esses últimos anos pude perceber que uma vontade de “sair” muitas vezes passa. A questão é que eu era de uma impulsividade tamanha que, sem mentira nenhuma, do momento que eu me estressava, passando muitas vezes pela discussão, até chutar o pau da barraca era questão de minutos. Era capaz de levar ao chão em segundos projetos que eu acalentava e construía demoradamente. Eu não tinha paciência. Eu não ouvia a opinião das pessoas. Meu interior era muito frágil. Estava sempre na defensiva e pronto para atacar. E isso me consumia muito energia interna. Sabe quando você deixa todos os aplicativos e ferramentas de um celular abertos e funcionando desnecessariamente (wifi, dados, luminosidade, volume alto, vibrar, proteção de tela etc)? Isso consome a bateria. No entanto, o problema não é consumir ou não a bateria, é o consumo desnecessário! Eu fazia o mesmo processo e ia minando minhas energias diárias desnecessariamente, então quando era preciso lidar com estresse e adversidades mesmo, como não tinha energia suficiente para pensar eu fugia. E quem não enfrenta os desafios da vida não adquire força, nem maturidade. Assim, nas raras vezes que tentava resolver problemas nessa época, não resolvia nada, só agravava a situação. Como não tinha maturidade nem força, quando me estressava demais, não via uma saída, e como não tinha paciência para esperar, a única solução era “sair”daquela situação. Hoje vejo que sempre há uma solução.

É mais simples do que parece. A solução para os problemas, do meu ponto de vista com base em tudo que experimentei nesses anos, demanda primeiramente em estar desarmado. Em paz. Ninguém resolve nada em sentimento de guerra, nem a própria guerra. Quem vive armado vive cansado e não raciocina direito porque está se deixando consumir por sua própria energia. Eu me descobri campeão nesse processo porque tenho um temperamento explosivo. Quando algo qualquer me contraria e consegue me frustrar é questão de tempo até eu sentir os sinais físicos. Meu coração sorrateiramente começa a bater mais rápido, minha respiração no mesmo embalo vai imperceptivelmente mudando, começo a me incomodar com o espaço, com a temperatura, pensamentos bélicos vão surgindo e meu olho começa a mirar. Tudo isso como uma preparação para um ataque. E o pior, tudo isso muito, muito, muito sutilmente. Nesse estagio estou tomado pela ira. Cego. E com raiva damos outra dimensão aos problemas; damos uma dimensão errada; não escutamos as partes contrárias e já não pensamos no que falamos nem fazemos.

Hoje, após ter escalado alguns estágios dessa montanha, observo que a maior empreitada tem sido aquela que faço diariamente para me conhecer melhor, me desenvolver mais e me harmonizar com o meio. Eu sei que continuarei errando. Eu sei que continuarei me estressando. Mas a vida é feita de uma gama de experiências e existe sim, sempre, luz ao final de qualquer túnel, só demanda que estejamos calmos e em paz o suficiente para encontrar, muitas vezes com a ajuda de outra(s) pessoa(s). Isso exige também humildade. Autocontrole. (Auto)Indulgência. E muita, muita paciência. Percebi também que as pessoas e as situações não nos irritam, nós é quem permitimos que a raiva nos contamine cada vez mais, dependendo do estágio em que já nos encontramos. E que uma boa alimentação, uma boa noite de sono, atividade física regular, andar com fé e ter um ouvido amigo nas horas vagas, nos preparam para qualquer problema que encontraremos pelo caminho.

Eu olho pra essa minha escalada e sinto orgulho de mim mesmo das partes em que venci os obstáculos. Mas sinto muito mais orgulho daquelas partes em que eu não venci, mas também não deixei de escalar. Aprendo dia após dia que o grande objetivo da vida não está em vencer ou não vencer, está numa escolha pessoal que fazemos diariamente de não parar de caminhar. Não importa aonde você está. Não importa aonde você quer chegar. O que importa realmente é se você desistiu nesse caminho. Não desista de você! Não desista dos seus sonhos! Dê a si mesmo a chance, a oportunidade de continuar, porque a vida não é uma partida, a vida não é uma chegada, a vida é o seu movimento constante. A vida é o seu caminhar!

Eu te desejo de coração um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

#50 fatos sobre mim


1- Sou vegetariano;
2- Nunca andei de avião;
3- Nunca sai do estado de SP;
4- Não gosto de viajar;
5- Sou de esquerda;
6- Se nada der certo, eu viro hippie;
7- Fui ao shopping uma única vez na vida, fui com a escola e isso tem mais de 10 anos;
8- Faz uns 15 anos que não vou à praia;
9- Já fui convidado para trabalhar como modelo, não aceitei;
10- Nunca usei protetor solar;
11- Não tomo remédios;
12- Quando eu criança meus pais pensavam que eu fosse autista;
13- Gosto de regras, não trapaceio, eu nunca colei;
14- Confio fácil, perdoo dificilmente;
15- Evito prometer, promessas são dívidas de honra e honra é uma coisa séria;
16- Meu maior sonho é ser pai;
17- Estudo astrologia há uns 20 anos e adoro mitologias grego e romana;
18- Já fiz terapia quântica e regressão;
19- Hoje exatamente está fazendo 10 anos que meu pai faleceu;
20- Sou o homem da casa;
21- Tenho muita fé, sou católico, mas mantive sempre a mente aberta;
22- Se eu não fosse eu, seria um monge tibetano, um dia me converterei ao budismo;
23- Medito;
24- Tirei a CNH faz pouco tempo e nunca tive vontade de tirar;
25- Amigo é algo sagrado, a lealdade vai muito além da fidelidade;
26- Abraços me constrangem e eu não gosto que me peguem;
27- Minha mente é muito lógica, tenho certa dificuldade pra entender as necessidades dos outros; 
28- Gosto de conversar olhando nos olhos;
29- Tenho TOC com os meus objetos, tudo tem o seu devido lugar e não gosto que tirem da ordem;
30- Estava completamente bêbado quando fiz minha primeira tatuagem;
31- No ensino médio me esforçava para não tirar nota alta, tinha vergonha de ser inteligente;
32- Já fiz professor chorar em sala;
33- Fui reprovado no 3° colegial, parei de estudar um tempo e retornei anos mais tarde;
34- Tinha insônia, na adolescência assisti todos os filmes que passaram no Intercine e no Corujão;
35- Na infância subia no telhado de madrugada pra pensar, às vezes eu amanhecia lá;
36- Confiança, justiça e honestidade são qualidades que me conferem e são as que mais me cobro;
37- Não fiz catequese e crisma, sempre quis tomar a hóstia mas tinha medo, esse ano criei coragem;
38- Nunca me confessei;
39- Nunca me arrependi de nada;
40- Sou muito orgulhoso, quando meu pai faleceu eu não falava com ele;
41- Fiz faculdade com bolsa do Prouni;
42- Não gosto de vídeo-games, mas fui bom no fliperama;
43- Comecei a trabalhar com 15 anos, desde então não aceitei mais dinheiro deles;
44- Gosto de correr na rua;
45- Já pesei mais de 100kg;
46- “Como os Nossos Pais” da Elis Regina mexe muito comigo;
47- Capital Inicial fez as trilhas sonoras da minha vida;
48- Gosto de observar a reação e o comportamento das pessoas;
49- Em filmes e livros sempre me atraio mais pelo psicopata;
50- Todo mundo se abre comigo, pede conselho e ainda diz que eu deveria fazer psicologia.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O LADO BOM DA BRIGA



Outro dia, um amigo e eu estávamos conversando numa rede social – fazia um tempo que não nos falávamos – e de repente ele escreve assim: “Um dia quando eu for um profissional bem sucedido, vou te procurar para apertar sua mão e agradecê-lo”. De início imaginei que ele estivesse brincando ou sendo irônico e disse isso a ele. Muitas vezes nós nos desentendemos e nessas ocasiões eu o critiquei muito, sendo assim imaginava que ele me evitava pelas coisas que já ouviu de mim. Só que ele respondeu que na verdade não só é grato, como tudo o que fiz e falei a ele o fizeram crescer como ser humano. Hoje o percebo mais maduro por pensar assim. Apesar de surpreso com sua resposta, não é primeira vez que isso acontece, já houve situações semelhantes com outras pessoas. Pessoas que travei fortes discussões, onde na hora da raiva falei tudo o que queria francamente e também terminei ouvindo o que não esperava, mas hoje são as pessoas que eu mais me identifico, ou as que eu mais confio, ou são justamente as que mais me fizeram me desenvolver como pessoa.

Existe uma ideia, meio romantizada, de que as relações sempre devem ser saudáveis e harmoniosas e de que na vida é só pensar positivo que obteremos crescimento. Prega-se que as pessoas precisam sempre ser educadas, tolerar, compreender e aceitar umas as outras com seus defeitos e suas limitações. Tudo tem que parecer um mar de rosas. Mas e os embates não acontecem na vida real? Eu não vou aqui pregar o contrário, porém quero convidar a refletirmos sobre uma contribuição positiva advinda das relações conflituosas; das brigas; das discussões; das ofensas; dos comentários ácidos, irônicos, sarcásticos. A gente esquece que existe aprendizado também a partir desse conflito acirrado. Veja a própria história, as guerras impulsionaram o desenvolvimento dos países envolvidos. A gente não admite mas o que nos possibilita crescer é a dor. É o sofrimento. O ser humano odeia ser contrariado, mas ele é atraído por tudo aquilo que o contraria. E aquilo que contraria propicia crescimento. Embora a gente não perceba num primeiro momento, as relações com as pessoas que brigamos podem nos ensinar muito sobre nós mesmos porque são relações francas. Note que quando você precisa de um feedback sincero, ou você procura aquela pessoa que sabe que é muito racional ou procura aquela pessoa que não tem muito afeto por você. Justamente porque sabemos que quando gostamos de alguém “suavizamos” a crítica. Fazemos “vista grossa” para não magoar essa pessoa. Mas e quando uma pessoa precisa ouvir algo para crescer? Tem gente que precisa de um verdadeiro choque de realidade para acordar para determinadas situações. E vem possivelmente na forma de briga e discussão, quando alguém diz algo que a pessoa não quer ouvir. Mas precisa ouvir!

Você deve estar pensando: “Mas eu posso dar um feedback sincero, construtivo e ainda ser gentil!”. Eu não duvido que possa. Mas você vai concordar que não existem apenas pessoas gentis ao nosso redor. Existem aquelas pessoas que brigamos, que brigam conosco, que nos ofendem, que jogam indiretas, que lançam mão de ironia e sarcasmo. E nada do que essas pessoas fazem se pode aproveitar? É tudo picuinha? O nosso problema é que não prestamos atenção ao que está sendo dito e sim apenas em como está sendo dito. Existem pesquisas que comprovam que apenas 7% de nossa comunicação está no conteúdo dito, o restante se faz pela nossa expressão corporal e pelo nosso tom de voz. Ou seja, nós praticamente ignoramos os “embrulhos” quando eles vêm em embalagem que não nos agrada. Nós só entendemos ou aceitamos conforme é transmitido. Mas o que é mais importante: a capa do livro ou o seu conteúdo? Como comunicar ou o que se comunica?

Eu sei que a comunicação é tão importante quanto o conteúdo, mas na vida em muitos momentos somos expostos a situações estressantes, desafiantes, com pessoas diferentes de nós. Não podemos deixar de considerar o conteúdo só porque veio na forma de grosseria. Da mesma forma que a vida pode ser cruel nos ensinando algo através de uma doença, de algum sofrimento; existem algumas pessoas que nos agridem mas podem nos ensinar algo de bom. Em ambos os casos só cabe a nós querer considerar. Faça um exercício simples. Puxe na sua memória algum dia que tenha brigado com alguém. Certamente essa pessoa disse coisas que você não gostou. Subtraia toda a grosseria da forma como a pessoa falou, mas reflita o que essa pessoa disse essencialmente. Agora que está com o ânimo mais calmo, que pode raciocinar melhor, será que nada, nada mesmo, fazia sentido?

sábado, 17 de setembro de 2016

O y da questão


Alguns aspectos da sociedade tem mudado significativamente desde a chegada dos indivíduos nascidos a partir do final da década de 80. Existem diferenças significativas no modo como as gerações Y e Z percebem a realidade, se relacionam e principalmente em como as mesmas têm escolhido viver os limites e os protocolos praticados até então.

Apesar de eu ter nascido nos anos 1980 e ser um integrante da geração Y, confesso que sempre me identifiquei mais com a geração anterior, a geração X. E por essa razão observo curioso as mudanças nos comportamentos e nos protocolos sociais. Observo com atenção a dinâmica social, seja na esfera familiar, profissional, acadêmica, afetiva, pessoal. Acredito que até a geração X a sociedade era marcada por delimitações muito claras de aspectos como, por exemplo, sexualidade; formação familiar; consumo; construção de carreira profissional; realização pessoal; sucesso; aprendizado. E definições claras dos papéis sociais: o que é ser um homem; o que é ser uma mulher; o que é ser pai; mãe; filho; cônjuge; cidadão; aluno; professor.

A partir da geração Y tudo vem mudando. Estes jovens inovaram o mercado de trabalho, formaram famílias diferentes e se relacionam de formas mais fluídas. Soltas. Menos protocolar. E isso de primeiro momento julgamos como algo negativo. Cheguei a escrever posts aqui sobre isso. No entanto hoje eu penso de maneira diferente. Não vejo mais as mudanças que estão ocorrendo como irresponsáveis, imaturas, muito menos problemáticas. Vejo uma nova construção social sendo realizada. Uma construção totalmente diferente de estruturas que eram aceitas até então. E isso causa um verdadeiro “choque de ideologias”. Para citar alguns exemplos temos a mudança nas lideranças empresariais. As lideranças estão mais pontuais. Situacionais. Vai à frente aquele que sabe, naquele momento, lidar com o problema. Mas não necessariamente este ficará na posição de líder para sempre, porque, com o surgimento de outra situação-problema, poderá ser um outro membro da equipe, mais capacitado para solucionar aquela equação, quem tomará a frente. Isso é Liderança Compartilhada. A empresa cria uma equipe, um time, que compartilha o poder decisório e a liderança para a resolução das situações-problemas. O poder é compartilhado. Obviamente que isso exige um alto grau de maturidade da equipe e da cultura da empresa. 

Na família, o homem não tem mais a palavra final. Apesar de na maioria dos lares ele ainda ser o tomador de decisões, essa realidade tem mudado constantemente para uma dinâmica onde homens e mulheres compartilham o poder, algumas vezes até com o próprio filho. O filho é um participante no processo decisório. E isto se faz necessário para que ele desenvolva desde cedo responsabilidade e autonomia. Numa casa onde pai e mãe trabalham fora, esta criança navegará sozinha na internet e precisará ter responsabilidade e discernimento para saber o que irá pesquisar, acessar, compartilhar.

Na política também temos presenciado fenômenos interessantes nesse sentido. Jovens têm participado mais ativamente dos movimentos políticos e cobrado relações mais claras, honestas e dignas de seus governantes. Nos últimos anos, assistimos um negro chegar à cadeira da presidência do país mais poderoso do mundo; uma mulher chegar à presidência do nosso; realizamos impeachment, pela segunda vez... Não há como dizer que o mundo não esteja mudando...

Na mídia assistimos agora casais gays em horário nobre. E não mais apresentados de maneira cômica. As próprias gerações mais novas têm mostrado que o tema sexualidade para elas não é um tabu nem motivo de preconceito. Essas gerações lidam com a sexualidade de maneira menos proibitiva e mais fluída. Apesar de ainda existir preconceito em nossa sociedade, nunca se viu com tanta naturalidade héteros e gays convivendo e se relacionando entre si sem discriminação nem gozações. Relacionamentos estes que seriam impossíveis de ocorrer até décadas atrás, quando havia mais segregação e guetos. 

O que estamos assistindo diante de nossos olhos é a diluição das estruturas de tudo aquilo que dávamos como correto, estável e sólido. Uma total diluição das estruturas antigas pré-estabelecidas e a construção de estruturas mais provisórias que satisfazem momentaneamente determinados interesses. Num cenário onde saem as tradições e os protocolos sociais e adentram novas formas de se viver é óbvio que cause choque de gerações. O cenário atual exige de todos nós mais flexibilidade, criatividade e adaptabilidade às mudanças e uma maior aceitação às diferenças para lidarmos uns com os outros, principalmente com as novas gerações que são pluralizadas, multiculturais e cheias de diversidade. Isso causa desconforto porque destrói toda idealização de verdade e combate o status quo, porém, penso que devemos ser estrategistas e utilizar os ventos a nosso favor. Um bom navegante não reclama dos ventos, ele ajusta as velas. Se é uma certeza que a mudança veio para ficar, que o cenário está mudando e continuará, o que precisamos fazer é aprender a jogar esse jogo. Recentemente ouvi a seguinte frase: “não se pode expandir sem abrir mão de controle”. Acho que consigo entender o que queria ser dito. E você?

Em seleção natural, Charles Darwin nos mostrou que o meio ambiente seleciona as espécies. As espécies mais adaptadas ao meio são as que sobrevivem. Isso faz pensar, não?

domingo, 11 de setembro de 2016

Sr. Responsabilidade


É engraçado como é uma verdade que vamos chegando próximo aos trinta e começamos a pensar uma série de coisas que antes não pensávamos ou que talvez não dávamos tanta importância. Na verdade eu até dava. Eu acho que sempre dei importância demais a essas coisas.

Essas coisas a que me refiro são planos, metas, objetivos, prazos. Tudo aquilo que transforma nossa vida numa espécie de estratégia exata, que foi minuciosamente planejada. Tudo aquilo que nos dá uma sensação de estabilidade, de ter uma base fixa; uma sensação de que estaríamos “fazendo a coisa certa”. Eu acho que é esse o “x” dessa questão; é sobre isso que quero falar. Quero falar sobre essa avaliação que nos fazemos constantemente para dizer se estamos ou não “no caminho certo”, seguindo o script ou se estamos “falhando nesse processo”. Eu sei, parece duro. Mas quem nunca fez isso? 

Sou um tipo 1 no Eneagrama. Conformidade no DISC. INTJ (Introvertido, Intuitivo, Racional e Crítico) no MBTI. Quem conhece o mínimo dessas coisas já consegue ter uma ideia do  tipo da pessoa. Eu posso afirmar que nunca conheci alguém tão encanado com tempo quanto eu. Tanto que relógio é um adereço que você raramente me verá sem. Que por sinal ontem sai de casa com um parado. Pensa num cara incomodado porque olhava no pulso e verificava que seu relógio tinha parado às exatas três horas da manhã. “Como não vi isso? Por que não peguei um outro antes de sair?” Você não iria acreditar mas eu ficava arrumando os ponteiros manualmente hora após hora, porque me incomodava ver aqueles ponteiros imóveis. Eu sei, eu sou louco. Estou sempre calculando as coisas. Sejam gramas, quilômetros, minutos, tarefas, prazos; fazendo estimativas de tempo, análises de performances, comparações e ao final balanços que mais parecem vereditos. Sou um compulsivo por controle. Não sei exatamente quando isso começou ou o que desencadeou essa mania de administrar tudo, mas confesso que isso tem gerado bastante ansiedade e algumas frustrações, e percebo que a cada ano me afundo mais nessa armadilha. Porque isso é uma armadilha. 

Tenho (“tenho”) que controlar meu peso pra não ficar gordo. Tenho que controlar a medida da circunferência abdominal porque segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) acima de 90 centímetros no homem aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Tenho que ingerir vitamina C após as refeições, e não ingerir cálcio junto, porque sou vegetariano e tenho que ficar atento à absorção de ferro. Tenho que controlar minha performance na corrida, porque já faz uns 3 anos que não corro um percurso maior do que o de costume e  quero fazê-lo mais rápido. Estou pensando já numa terceira especialização sendo que nem terminei a primeira. Agora inventei de fazer musculação e se me deixarem quero fazer avaliação física semanalmente, para controlar percentual de massa magra e gordura corporal, mesmo o instrutor já advertindo que isso é encanação demais. Neste primeiro semestre de pós graduação fechei com uma média final de 9,2 e pensa num cara insatisfeito que resmungou até! Por pouco eu não mandei um e-mail aos professores pedindo esclarecimentos. Mew, nem eu me perdoaria se tivesse feito isso... Eu tive que me controlar me dizendo: “calma... chega... para com isso, você está indo longe demais... relaxa, 9,2 está ótimo...”. E eu só queria entender o que faltou nesses 0,8. Eu sei, eu também tenho vergonha de ser assim, mas quando eu vejo já estou brigando, reclamando, criticando, ou "apenas dando minha opinião" como eu gosto de dizer. E se esse processo não é exteriorizado, tenha certeza de que estou reclamando na minha mente. 

Eu tenho um sério problema com expectativas altas. Cobro isso dos outros e de mim mesmo. Eu já comentei isso aqui, em qualquer teste que faço que meça controle, meticulosidade, concentração, o resultado é altíssimo. Beira fácil os 100%. Eu acho que uns 97/98 chega. Sou hiper focado. Centrado. Controlado. Objetivo. Preciso. Meticuloso. Metódico. Esses adjetivos me serviriam como uma luva. E sendo bem sincero eu já estou cansado disso. Eu estou cansado de ter que ser tão perfeito, tão preciso, tão metódico, tão correto para as outras pessoas. É maçante isso. Estressante. Angustiante. Eu cheguei num ponto que não consigo mais fazer testes psicológicos nem ouvir de alguém que possuo uma das características acima e não me sentir deprê. Não acho mais legal ser tão meticuloso. Sabe quando você não suporta mais passar uma determinada imagem às pessoas mas não consegue se livrar dela? E não é só questão de se livrar dessa imagem, porque isso é o de menos, sinceramente. Eu só não quero mais sentir o peso, a pressão ou a cobrança que os outros depositam em mim, porque eu mesmo já me imponho isso severamente. Você sabe o que é ter medo de errar, de falhar, porque você deixou os outros acreditarem que você seria capaz? É isso. Eu sinto como se afirmasse a todas as pessoas: “deixem comigo, confiem em mim, eu consigo! ”. E depois pra sustentar isso... 

Quando meu pai faleceu a dez anos atrás, eu tinha acabado de atingir a maioridade, eu peguei o leme e fui à frente da família, com uma herança de dívidas, e tinha que ouvir meu irmão debochando: “vai lá super-homem, salva a pátria”. Tinha dois empregos, não dormia, fazia supermercado, pagava as contas sozinho, servia de psicólogo aos demais e assim gradativamente fui assumindo mais e mais responsabilidades. Porque é assim que eu faço, talvez numa ânsia de querer agradar, eu vou aceitando mais responsabilidades e mostrando eficiência, prontidão, proatividade e querendo provar a mim mesmo que vou dar conta de tudo sozinho e ao final me sobrecarregando mais. Mas eu não admito – tampouco eu aceito – algum tipo de lamúria. Eu simplesmente me obrigo a fazer o que tem que ser feito porque eu disse que faria e agora todos estão dependendo de mim. E como é gostosa essa sensação de ser útil...  Como é gostoso saber que você é aquele cara que todos vão olhar quando a casa estiver caindo. Você se sente amado. Mas será que isso é amor? 

O difícil é viver com a missão de ser o Sr. Responsabilidade. E ter de conviver com uma espécie de crítico interno que ceifará qualquer demonstração de cansaço ou de fraqueza. Pensa numa pessoa que se cobra constantemente da seguinte forma: “tira essa bunda da cadeira e vá trabalhar. Seja mais rápido, você está lerdo hoje. Olhe que horas já são e você está aqui ainda. Sai dessa cama e vá correr 10km, de preferência uns 15 hoje porque você não sai desses 10 em 52 minutos. Só por que hoje é domingo?! Você não disse que chegaria aos trinta com duas graduações? Não vai à academia hoje por quê?! Você já foi melhor... Faça isso, faça aquilo, seja mais útil, seja mais ágil, seja mais firme, mais forte...”. Você aí deve estar assustado mas eu juro que é bem assim. É assim que esse meu crítico interno fala comigo. Aliás, é assim que o meu crítico interno falaria com você também, porque é assim que ele enxerga o mundo. Um local que precisa ser posto em ordem e controlado. Se eu começar a fungar com o maxilar cerrado e você ouvir o som da minha respiração apenas pelo nariz, tenha certeza de que estou fervendo por dentro como uma panela de pressão. Tipo 1, lembra? Seu vício é uma raiva contida...

Estou fazendo esse texto porque eu tenho certeza que deve existir alguém que se identifique com isso e o primeiro passo é admitir quando queremos mudar. E eu sinceramente preciso mudar. Porque nem mesmo eu estou me suportando mais. Essa espécie de inquisidor que só sabe diagnosticar falhas. Não sei quando foi que fiquei tão chato, quando me tornei tão cri cri, tão dicotômico! E o pior é que eu sei que não existe certo e errado. Eu acho que brigo pelo prazer da briga, porque no fundo eu sei que a pessoa tem a sua razão. Diversas são as vezes que me pego em embates fortes onde só falta eu sacar o dedo na cara da pessoa, e eu vou argumentando, argumentando, até a outra parte ceder. E quanto mais cansado ou sob estresse eu estiver mais debatedor me tornarei.

Hoje após análise eu percebo que esse crítico interno é só um substituto. Qualquer conhecedor mínimo de mecanismos psicológicos perceberia que esse crítico interno assumiu o papel do meu pai na minha vida. Ele se foi há dez anos e este assumiu o seu lugar. E quando penso nisso eu sinto mais raiva ainda, porque eu me sinto mais tolo por saber que tenho consciência desse mecanismo. Eu sempre soube o quanto esse comportamento do meu pai não me fazia bem e hoje ironicamente me coloco, por vontade, sob o mesmo tratamento. É uma piada mesmo.

Mas o pior de tudo. Sabe quando você tem a exata sensação de que sabe o que veio fazer aqui? Eu não sei como, eu não sei por que, mas eu tenho, e sempre tive, uma estranha sensação de que vim aqui pra ser solidário, pra entender as pessoas, pra compreender os seus problema, pra aceitar, tolerar e propor uma ajuda sincera, me unificando a elas, e no entanto me pego às vezes fazendo exatamente o contrário, ficando numa posição de juiz e "avaliando" as situações. E quando isso acontece você não imagina o quanto desapontado eu fico. Se existe um ideal de vida, eu juro que o meu eu gostaria que fosse viver sem luxo algum, me doando às pessoas em ONGs, sendo solidário e humanitário. Ou seja, uma imagem totalmente diferente dessa que descrevi acima.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Apoptose



Estou fazendo pós-graduação. Esse período estudando e trocando experiências tem sido bastante esclarecedor para mim. Consigo mais uma vez constatar algo que já havia percebido: o conhecimento nos instiga. Toda vez que adquirimos informações e elas sintetizam algum conhecimento, esse processo provoca um movimento interno que nos transforma de alguma maneira. Inevitavelmente. Acontece com todas as pessoas. Nem sempre é perceptível a nós mesmos num primeiro momento. Talvez seja mais nítido aos que convivem conosco. Nessa linha de pensamento, observo que a sociedade contemporânea vive um momento crítico, impulsionado por duas situações: de um lado a difusão democrática do conhecimento advinda da internet e do outro as desigualdades sociais e uma intolerância às diferenças. Essas situações criaram um ambiente perigoso propício ao confronto. Neste post, quero associar os movimentos atuais – tidos como fascistas no mundo todo – ao fortalecimento pessoal que foi gerado pela democratização do saber. É o acesso ao conhecimento que gera uma necessidade de posicionamento e atuação por parte das pessoas. Seria então a democratização do conhecimento um erro? Precisamos se opôr a esses movimentos sociais de natureza tão incisiva? Qual a relação entre o conhecimento e a atitude de uma pessoa?

Durante sua vida, você adquire conhecimentos e isso traz a você mudanças significativas. As experiências que você passa, as histórias que ouve, as conversas que participa, os cursos que realiza, os livros que lê, os filmes que assiste e as percepções, associações e conclusões que faz disso tudo, te traz conhecimentos. Quanto mais você participa desse processo, se enriquecendo nesse sentido, mais você absorve conhecimento e consequentemente termina se fortalecendo. Essa força, proporcionada por esse acúmulo de saberes, faz com que você sinta, cada vez mais, uma necessidade de se posicionar frente às situações; de se expressar como você realmente é.

Ao longo da minha vida, a medida que ia adquirindo conhecimentos dos mais variados sentia que ia mudando. Na hora não é consciente, a gente não percebe essa transformação pois ela ocorre gradativamente, abaixo de nossa percepção. Ao longo do tempo, apenas ia me dando conta de que alguns gostos, algumas opiniões e algumas formas de me posicionar frente às situações, que antes eram muito certas para mim, iam ficando para trás. Mas foi na faculdade que eu tive pela primeira vez uma percepção mais clara de que estava mudando. Me lembro que desde o primeiro semestre passei a observar amigos e colegas e os vi mudarem no decorrer dos anos. Me questionava às vezes se aquilo seria uma mudança mesmo ou se seria um comportamento latente que apenas vinha à superfície. Casos que iam desde uma pessoa mais passiva que de repente “aprendia” a se colocar e aumentava o tom de voz nas discussões, até casos de pessoas assumindo uma orientação sexual diferente. De início sempre me parecia que esses comportamentos eram inesperados. Mas hoje chego a conclusão que o processo é gradativo. A pessoa vai se fortalecendo aos poucos a medida que vai ganhando conhecimento e então passa a externar as suas ideologias, preferências e opiniões próprias. E pode até acontecer inconscientemente também. Hoje tenho a opinião de que o conhecimento empodera o indivíduo e esse empoderamento pessoal o faz se revelar como pessoa. Inevitavelmente ele vai se mostrar como é. Haverá uma necessidade de se posicionar, de se expressar, de fazer valer os seus direitos.

Retornando à época da faculdade. Passei então a me observar melhor em busca de encontrar alguma transformação e conversando a respeito com pessoas próximas a mim constatei que realmente elas ocorriam. Eu já não era mais o mesmo que tinha iniciado a faculdade. Então, associei esse “fenômeno” ao indivíduo que cursava uma faculdade. Concluindo na época que todo aquele que fizesse um curso superior inevitavelmente iria mudar. Mais tarde descobriria que não foi cursar uma faculdade o mote principal da mudança, mas sim o conhecimento que se é adquirido numa faculdade, e que pode ser adquirido em qualquer lugar. O foco não está na faculdade. Está no conhecimento. O saber é o responsável por nos provocar inquietações; movimentos internos que nos alargam; que encorpam nossa personalidade; que trazem coragem e força para nos assumirmos como somos ou como queremos ser tratados. Conhecimento daquilo somos. Daquilo que podemos ser. Daquilo que queremos ser. Assim como conhecimento daquilo que não gostamos nem aceitamos... 

Diante de todas essas reflexões, percebi que o grande poder no mundo nunca esteve em espadas ou armas. Tampouco estava no dinheiro. O poder nunca se encontrou em fontes tangíveis. Desde o início dos tempos, a fonte de qualquer poder está no saber. É o conhecimento que move o mundo. No antigo Egito, por trás dos faraós existiam os sacerdotes que detinham o conhecimento místico dos vivos e dos mortos. Nas monarquias, por trás dos reis existiam os conselheiros que detinham o conhecimento das estratégias de guerras e de política. Nos dias atuais, por trás de governos do mundo todo existem órgãos inteligentes que mapeiam e traçam cenários geopolíticos futuros. O poder nunca estará no corpo que avança, mas sim na cabeça pensante que o guia. Mas se no passado o conhecimento era de domínio particular, hoje o conhecimento é de domínio público. Especialmente hoje em se tratando de internet. A internet globalizou o conhecimento democratizando o acesso. E isso é um problema mais sério do que imaginamos. Nas relações de poder, desde o início dos tempos o conhecimento se encontrou em domínio de poucos porque era conveniente essa situação. As elites monopolizavam o acesso ao saber e dominavam assim o resto do povo que se destinava passivamente à subjugação. Mas conhecimento é poder e hoje empoderamos a todos democraticamente. Na atual era do conhecimento, como administrar uma sociedade de desigualdades históricas em que todos os seus indivíduos podem se empoderar? Como administrar uma sociedade de indivíduos que se empoderam mas têm baixa aceitação e tolerância às diferenças entre si? O empoderamento pessoal, oriundo de um maior acesso ao conhecimento, tem feito as pessoas: questionarem as atuais relações de poder no mundo; conhecerem e exigirem seus direitos; se posicionarem fortemente com ideologias, conceitos, preferências, crenças. Mas infelizmente em lugar nenhum do mundo se empoderou na mesma proporção para uma cultura de tolerância e aceitação.

Eu não estou dizendo que as pessoas estão mais inteligentes. De forma nenhuma. Acesso ao conhecimento não significou necessariamente maior erudição ou inteligência. Eu friso o fato do indivíduo ter hoje apenas mais acesso ao saber. O fato em si é empoderador. Mas são indivíduos em sua grande maioria imaturos psicologicamente; socialmente; politicamente. E não lidam bem com as frustrações. É como darmos voz e poder de decisão a uma criança – e essa analogia descreve perfeitamente os nossos tempos. A difusão democrática do conhecimento tem empoderado por igual  indiferença e fanatismo, e não vindo acompanhada de uma cultura de tolerância, aceitação e respeito com as diferenças. Isso talvez explique movimentos muito próximos do anarquismo, assim como a ascensão da “extrema direita” no mundo todo. Demos voz a um indivíduo imaturo para viver numa sociedade que historicamente o segregou, o oprimiu e o excluiu. Misture esse “ódio enrustido” e talvez entenderá a origem desse momento doido que vivemos que nem sociólogos, filósofos, psicólogos conseguem decifrar ao certo. Pessoas pedindo a volta do regime militar no Brasil; crescentes ideias nazistas-fascistas mundo a fora; em todo canto inversão de valores... Vivemos um caos difícil de ler. Difícil de entender. Difícil de administrar.

Concluo que o livre acesso ao conhecimento não é um problema. É um problema uma difusão de conhecimento que não vem pareada de uma cultura de tolerância, numa sociedade excludente. Não quero acreditar que a sociedade contemporânea passará por um processo de apoptose, em que chegará num ponto em que se autodestruirá. Quero imaginar a sociedade apenas como um grande sistema em que se está aumentando gradativamente as energias que circulam por ele. Ou encontramos formas para que essas energias possam circular de forma eficiente, ou então elas destruirão o sistema.

domingo, 17 de julho de 2016

E U



Um amigo, estudante de Filosofia, está prestes a terminar o curso. Está na fase de elaboração do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Ele veio me procurar pedindo uma contribuição minha para a sua obra. Ele acompanha o blog e admira o jeito que escrevo. Me deu seu tema e pediu minha opinião. Preciso mencionar que fiquei lisonjeado? Preciso mencionar que fiquei sem jeito até? É verdade também que fiquei surpreso. Por dois motivos principais. Primeiro porque ele é um seminarista, podia pedir orientação aos seus colegas e superiores mas está recorrendo a uma fonte externa. Ponto para ele. Segundo porque ele estuda filosofia numa instituição católica e é seminarista. Combinações perigosas... Filosofia e religião juntas é quase como trabalhar com energia nuclear. Os ganhos e os riscos são igualmente elevados. Não me pergunte por que mas sempre vi assim. A verdade é que tanto ele quanto eu sabemos que um TCC é um trabalho acadêmico formal, de cunho científico, que exige “referências sérias” e que disso resultará uma nota de aprovação. O que para mim sempre foi uma baboseira do começo ao fim. São “n” os motivos. Combinamos então que escreverei aqui um post em cima do tema trazido e espero sinceramente que isso “contribua” a ele de alguma forma. Assim como aos demais leitores. É verdade que gosto, sim, de filosofia. Mesmo sem entender muito. Assim como é verdade que estou sempre pronto a dar o meu ponto de vista sobre as coisas. Mesmo sem ser chamado. E eu não tenho a menor ideia sobre como vou escrever sobre o tema que ele me trouxe...

Como um bom tema, esse que ele me trouxe faz a gente pensar e repensá-lo ao longo da vida. Consequentemente, qualquer opinião ofertada aqui está sujeita a ser refutada no futuro, pelo próprio autor. Antes de começar, já peço desculpas se o português aqui ficar rebuscado e o raciocínio complexo demais. Isso é ranço da tradição da filosofia. Não somente da filosofia. Tomemos o “juridiquês” como exemplo. Coisa que sempre detestei. Não suporto pessoas que falam ou escrevem difícil, porque uma coisa é você falar a acadêmicos ou a um grupo de intelectuais e eruditos e seu único objetivo é impressionar. O que mesmo assim acho desnecessário. Outra coisa é você saber que está falando com todo tipo de público (como o que frequenta esse espaço) e ficar se utilizando de palavras difíceis e sentenças complexas, dificultando a compreensão. Repito. Ranço de um passado.

Imagino que a essa altura deva estar curioso sobre o tema, mas pedirei sua licença novamente para fechar um parênteses aberto no primeiro parágrafo. O porquê disse que um TCC é uma baboseira do começo ao fim. Penso assim porque num TCC não há produção de conhecimento. Salvo raríssimas exceções. Na minha opinião deveria ter. Você estuda quatro/cinco/seis anos e no fim não tem liberdade para trilhar por caminhos que outros já não passaram. Quando fiz o meu por exemplo, lembro-me do meu orientador me cobrando a todo momento que eu deveria referenciar alguém. Jamais poderia concluir nada que partisse única e exclusivamente do meu próprio cérebro, sem uma referência. Num TCC, o aluno deve sempre referenciar um autor, escrever numa linha de raciocínio cartesiana, seguindo uma devida canaleta. E muitas vezes nem poderá ser “qualquer” canaleta. Nem se desviar dessa canaleta ao longo do trabalho! Você colocará uma viseira e seguirá o Autor (ao céu ou ao penhasco)... Já não bastasse julgarem o aluno, formado pela própria instituição, como incapaz de produzir algo inovador por conta própria, muitas instituições ainda pedem que esse trabalho seja feito em grupo! O que é ainda mais controverso, porque num grupo de cinco pessoas por exemplo, no muito três fazem o trabalho. Sem falar que você tem que ouvir do orientador: “diga o que o autor disse, apenas usando outras palavras”. (Oi?) (Como é?) Qual a diferença disso e plágio? E não me venha dizer que esta foi uma experiência que vivi na minha faculdade, porque nós sabemos que na grande maioria das instituições funciona da mesma forma. Isso não é culpa do orientador. Como também não é culpa da instituição. O responsável é o nosso velho modelo de ensino. Soaria ilógico uma universidade exigir que um aluno criasse algo novo num TCC, quando somos ensinados desde sempre a reproduzir conteúdos. Assim nos vemos passando adiante as mesmas (es)(his)tórias e encenando a mesma peça; mudam-se os cenários e as personagens mas o enredo permanece o mesmo. Seja na academia. Seja na vida. Seja na política... Deixo isso apenas para pensarmos...

O tema que meu amigo trouxe é Identidade Pessoal. Minha opinião aqui será rasa e superficial. Não espere algo profundo ou substancial. Não vou invocar um filósofo aqui. O que é mais provável que aconteça é que, como não sigo uma linha de raciocínio cartesiana, eu saia totalmente da casinha. Ou como dizem, tente pensar fora da caixa. Afirmo também que nunca existirá uma resposta certa ou definitiva para esta questão, porque se trata de uma visão subjetiva.

A questão Identidade Pessoal, em filosofia, trata das condições que explicam que uma pessoa é a mesma no decorrer de sua vida. Por exemplo, nas seguintes perguntas: Você é a mesma pessoa de anos atrás? Com base em que você afirmaria ou negaria isso? Como alguns podem observar ao analisar essas questões, ocorre o que ficou conhecido como “problema mente-corpo”. Existem duas correntes importantes relacionadas na resolução desse problema. O dualismo e o monismo. Basicamente, enquanto os dualistas vêem mente e corpo como coisas distintas, os monistas vêem uma coisa só. No entanto, ainda dentro do monismo, existem aqueles que consideram que mente e corpo são matéria, aqueles que entendem que ambos estão na mente e um terceiro tipo que seria “neutro”, segundo o qual existiria uma terceira substância que não seria física nem mental.

Como eu responderia, hoje, as duas questões acima? – Eu sou e não sou o Jonas de anos atrás, porque enquanto o Jonas existe, eu nunca existi! O Jonas é uma pessoa com nome, é uma ideia com formato. Intenção. Consciente. Aos quinze anos de idade, eu tinha uma professora chamada Maristela que me disse algo que eu nunca me esqueci. Ela me contou que sua mãe lhe dizia a seguinte frase: “tudo o que você dá nome, existe!”. Utilizo essa frase como base. O “Jonas” existe. Como percepção, mas na verdade o eu nunca existiu. O Eu é uma fabricação idealizada da percepção humana, que envolve questões biológicas, culturais e sociais. O homem, em seu delírio antropocêntrico, acredita poder se desvincular do todo e ter domínio sobre isso. No entanto, o homem é parte do todo. E o todo é fruto da percepção. De quem?! - você deve estar se perguntando agora. Aí entra a minha religiosidade... A Mente (que ao longo da história ganhou inúmeros nomes) é a origem do todo. Penso que essa Mente experiencia através da percepção humana – do corpo. O corpo (as sensações, as experiências, os sentidos) não é secundário em relação a mente, porque não existe essa relação, tudo seria a mente. Não exatamente da forma que fomos culturalizados aqui no Ocidente, negando os instintos e o próprio corpo, através de um pensamento “socrático-platônico-aristotélico”, que foi impulsionado pelo cristianismo (que nunca passou de um platonismo para o povo). Eu até entendo que essa “estratégia” teve sua finalidade, naquele período, na Grécia. Precisava-se de leis. O pensamento de Platão, com uma ideia cristalizada de verdade, ordenou o povo. Assim como o cristianismo fez em seguida com a ideia de culpa e pecado. O pensamento de Platão atingiu as elites, enquanto o cristianismo o povo. Ambos são métodos eficazes de controle, organização – e dominação – das pessoas. Por isso penso que a filosofia do Ocidente e o cristianismo são filhos do mesmo pai, e como todos os irmãos, às vezes não se bicam!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O medo de mexer no psicológico



Primeiramente gostaria de agradecer pela recepção da última postagem. Há muito que eu não via a quantidade de acessos como teve o blog em tão pouco tempo. Gostaria de aproveitar para agradecer aos visitantes que são de países onde a língua nativa não é o português - Tenho muita curiosidade sobre vocês. Saber que uma pessoa do outro lado do mundo por exemplo está neste momento lendo essas palavras... Fico imaginando se é brasileiro, se é alguém que fala o idioma, qual é a cultura do local em que vive e o que pensa essa pessoa sobre o que encontra aqui. Consigo levantar algumas informações porque a plataforma desse espaço permite explorar as visitas. Identificar de onde elas chegam; se é diretamente ou por algum mecanismo de busca; se é um retorno ou é a primeira vez; qual é o tempo permanecido aqui no blog; qual o caminho percorrido por essa pessoa aqui dentro etc. Obviamente que isso é possível porque o sistema identifica justamente o endereço de IP do visitante, mas como muitas vezes o IP é dinâmico, uma pessoa poderia acessar frequentemente o blog mas a mim apareceria sempre como sendo sua primeira visita. O que é uma pena pois não consigo explorar mais esse visitante, e consequentemente acabo desconhecendo as suas preferências. E é mais ou menos sobre isso que quero falar...

Como sei muito pouco – praticamente nada – do visitante em si (salvo algumas exceções), fico imaginando como ele é. Salvo exceções porque alguns são seguidores do blog, então eu entro no blog da pessoa também e acabo a conhecendo. Outros me encontram em redes sociais. Na vida pessoal as vezes. Mas a grande maioria eu não faço ideia de quem seja, como seja e o que pensa. E eu gosto de saber o que as pessoas pensam. A respeito de tudo. Eu gosto na verdade de conhecer as pessoas, psicológica e emocionalmente falando. Mas conhecer mesmo, por trás da máscara social. Quem realmente você realmente é. Se a pessoa me permite até, eu “invado” a sua particularidade. Porque eu gosto de investigar a fundo. E também de “mexer no psicológico” das pessoas – como alguns brincam. E é justamente isso que gostaria de trazer hoje: por que algumas pessoas não permitem, nem se permitem, mexer no seu psicológico?

Uma vez, um colega de uma empresa em que trabalhei, me disse o seguinte: “Você busca uma interpretação pra tudo e pra tudo você tem uma interpretação. Mas aqui você não pode ser assim.”. Ele falou tão simples e foi de uma percepção tão profunda que eu nunca mais me esqueci daquilo. Ele não me conhecia bem, trabalhávamos juntos a poucos meses e nosso contato nunca passava da protocolar rotina do trabalho. Mas foi aí nesse dia que tive a percepção de como o meu jeito de ser era transparente. Ao passo que gravei muito bem também o final de sua frase “aqui você não pode ser assim.”.

Aos 7 anos de idade mudei de uma cidade para a que vivo atualmente. Me lembro que era quase meio do ano, peguei a turma já formada e as aulas em curso. Passadas poucas semanas, me lembro de certo dia levantar a mão apontando para o quadro: “Dona, ali não se escreve com letra maiúscula?”. Brotou um riso desconfortável. “Não, Jonas, ali eu posso escrever como eu quiser, com letra maiúscula, minúscula, não faz diferença.” Continuei com a dúvida: “Dona, por ser um substantivo próprio não deveria ser escrito com letra maiúscula, é nome próprio.” Aquela mulher me fuzilou com o olhar e virou-se para o quadro me ignorando por completo, enquanto eu escutava os murmurinhos vindos do fundo da sala: “lá vai o sabidão querendo saber mais que a professora”. 

Aos 10 anos de idade, em uma das brigas – sem sentido – com o meu pai, vem ele e começa: “Você tem que acatar tudo o que eu falo!”. “Por quê?”. “Porque eu sou o seu pai!!”. “Mas você não é meu dono.”. E sai andando... já sabendo que iria apanhar.

Em um site, paguei para obter um teste que mapeia algumas dimensões da personalidade, com base nas respostas de uma série de questões sobre vários assuntos. O que segue é o resultado da dimensão “Abertura a novas experiências”:

Nem todos vão ficar felizes com a sua mente aventureira. Muitas pessoas estão satisfeitas com as ideias que servem bem a elas e à sua cultura, e com a visão a que se acostumaram sobre o que é ou não verdade. Elas não se animam com a perspectiva de sair de sua zona de conforto. Outras têm medo de novas maneiras de pensar e de formas criativas de resolver problemas porque são um pouco frágeis, no sentido em que têm problemas em manter a serenidade em seu mundo atual e não querem que alguém, como você, por exemplo, expanda as fronteiras de seu cosmo intelectual e cultural. Assim, não se surpreenda se as suas ideias pouco convencionais, às vezes, forem causa de críticas a você, ou mesmo se as pessoas fugirem da exploração de novos territórios da mente que você acha tão estimulantes.

Preciso falar mais alguma coisa? Eu não consigo entender. Eu juro que respeito a opinião dessas pessoas, já me deparei com muitas ao longo da vida. Eu só não entendo por quê. Por que a recusa de pensar “fora da caixa”? Por que não questionar o status quo? Por que alguns assuntos ainda hoje não podem ser discutidos abertamente? Por que algumas pessoas se escondem atrás de um absolutismo intocável recusando iniciativas e posicionamentos diferentes? Eu só não consigo achar uma resposta...

Apesar disso o resultado desse mesmo teste finaliza assim:

Apesar de algumas respostas negativas ao seu modo de pensar, muitas pessoas acham os seus pensamentos progressistas e a sua vívida imaginação muito atraentes. Algumas acham as suas maneiras novas de pensar e a sua disposição para explorar, que os outros acham intimidadoras, uma qualidade muito atraente. Outras almas criativas encontrarão em você uma companhia na jornada para o desconhecido e ficarão felizes com o companheirismo. As conversas com elas serão animadas e inovadoras e acenderão a imaginação, tanto a sua quanto a delas. Mesmo as pessoas menos curiosas que você ficarão impressionadas com a sua coragem de pensar e acreditar no que para elas é inimaginável e com a sua disposição de embarcar em aventuras da mente que elas achariam perigosas ou amedrontadoras. Para essas pessoas, você pode se tornar um mentor sobre o lado mais louco do pensamento e da crença, empurrando-as em direção às ideias criativas e progressistas que você acha tão interessantes.”.

Quer saber o que eu penso sobre tudo isso? Não dá para viver uma vida na superfície do nosso psicológico. Eu compreendo que nem todos estão prontos para mexer em certas partes, porque muitas vezes envolve feridas não cicatrizadas e traumas complicados, mas acredito que em algum momento é preciso mexer no psicológico. E digo mais ainda. Acredito que chega um momento em que a própria vida vai nos desnudar. Então, sempre que possível, desnude as pessoas. Sempre que possível, seja desnudado por elas. E troque experiências. Não tenha pudores. Como disse Caetano: “De perto, ninguém é normal”.