sábado, 17 de setembro de 2016

O y da questão


Alguns aspectos da sociedade tem mudado significativamente desde a chegada dos indivíduos nascidos a partir do final da década de 80. Existem diferenças significativas no modo como as gerações Y e Z percebem a realidade, se relacionam e principalmente em como as mesmas têm escolhido viver os limites e os protocolos praticados até então.

Apesar de eu ter nascido nos anos 1980 e ser um integrante da geração Y, confesso que sempre me identifiquei mais com a geração anterior, a geração X. E por essa razão observo curioso as mudanças nos comportamentos e nos protocolos sociais. Observo com atenção a dinâmica social, seja na esfera familiar, profissional, acadêmica, afetiva, pessoal. Acredito que até a geração X a sociedade era marcada por delimitações muito claras de aspectos como, por exemplo, sexualidade; formação familiar; consumo; construção de carreira profissional; realização pessoal; sucesso; aprendizado. E definições claras dos papéis sociais: o que é ser um homem; o que é ser uma mulher; o que é ser pai; mãe; filho; cônjuge; cidadão; aluno; professor.

A partir da geração Y tudo vem mudando. Estes jovens inovaram o mercado de trabalho, formaram famílias diferentes e se relacionam de formas mais fluídas. Soltas. Menos protocolar. E isso de primeiro momento julgamos como algo negativo. Cheguei a escrever posts aqui sobre isso. No entanto hoje eu penso de maneira diferente. Não vejo mais as mudanças que estão ocorrendo como irresponsáveis, imaturas, muito menos problemáticas. Vejo uma nova construção social sendo realizada. Uma construção totalmente diferente de estruturas que eram aceitas até então. E isso causa um verdadeiro “choque de ideologias”. Para citar alguns exemplos temos a mudança nas lideranças empresariais. As lideranças estão mais pontuais. Situacionais. Vai à frente aquele que sabe, naquele momento, lidar com o problema. Mas não necessariamente este ficará na posição de líder para sempre, porque, com o surgimento de outra situação-problema, poderá ser um outro membro da equipe, mais capacitado para solucionar aquela equação, quem tomará a frente. Isso é Liderança Compartilhada. A empresa cria uma equipe, um time, que compartilha o poder decisório e a liderança para a resolução das situações-problemas. O poder é compartilhado. Obviamente que isso exige um alto grau de maturidade da equipe e da cultura da empresa. 

Na família, o homem não tem mais a palavra final. Apesar de na maioria dos lares ele ainda ser o tomador de decisões, essa realidade tem mudado constantemente para uma dinâmica onde homens e mulheres compartilham o poder, algumas vezes até com o próprio filho. O filho é um participante no processo decisório. E isto se faz necessário para que ele desenvolva desde cedo responsabilidade e autonomia. Numa casa onde pai e mãe trabalham fora, esta criança navegará sozinha na internet e precisará ter responsabilidade e discernimento para saber o que irá pesquisar, acessar, compartilhar.

Na política também temos presenciado fenômenos interessantes nesse sentido. Jovens têm participado mais ativamente dos movimentos políticos e cobrado relações mais claras, honestas e dignas de seus governantes. Nos últimos anos, assistimos um negro chegar à cadeira da presidência do país mais poderoso do mundo; uma mulher chegar à presidência do nosso; realizamos impeachment, pela segunda vez... Não há como dizer que o mundo não esteja mudando...

Na mídia assistimos agora casais gays em horário nobre. E não mais apresentados de maneira cômica. As próprias gerações mais novas têm mostrado que o tema sexualidade para elas não é um tabu nem motivo de preconceito. Essas gerações lidam com a sexualidade de maneira menos proibitiva e mais fluída. Apesar de ainda existir preconceito em nossa sociedade, nunca se viu com tanta naturalidade héteros e gays convivendo e se relacionando entre si sem discriminação nem gozações. Relacionamentos estes que seriam impossíveis de ocorrer até décadas atrás, quando havia mais segregação e guetos. 

O que estamos assistindo diante de nossos olhos é a diluição das estruturas de tudo aquilo que dávamos como correto, estável e sólido. Uma total diluição das estruturas antigas pré-estabelecidas e a construção de estruturas mais provisórias que satisfazem momentaneamente determinados interesses. Num cenário onde saem as tradições e os protocolos sociais e adentram novas formas de se viver é óbvio que cause choque de gerações. O cenário atual exige de todos nós mais flexibilidade, criatividade e adaptabilidade às mudanças e uma maior aceitação às diferenças para lidarmos uns com os outros, principalmente com as novas gerações que são pluralizadas, multiculturais e cheias de diversidade. Isso causa desconforto porque destrói toda idealização de verdade e combate o status quo, porém, penso que devemos ser estrategistas e utilizar os ventos a nosso favor. Um bom navegante não reclama dos ventos, ele ajusta as velas. Se é uma certeza que a mudança veio para ficar, que o cenário está mudando e continuará, o que precisamos fazer é aprender a jogar esse jogo. Recentemente ouvi a seguinte frase: “não se pode expandir sem abrir mão de controle”. Acho que consigo entender o que queria ser dito. E você?

Em seleção natural, Charles Darwin nos mostrou que o meio ambiente seleciona as espécies. As espécies mais adaptadas ao meio são as que sobrevivem. Isso faz pensar, não?

domingo, 11 de setembro de 2016

Sr. Responsabilidade


É engraçado como é uma verdade que vamos chegando próximo aos trinta e começamos a pensar uma série de coisas que antes não pensávamos ou que talvez não dávamos tanta importância. Na verdade eu até dava. Eu acho que sempre dei importância demais a essas coisas.

Essas coisas a que me refiro são planos, metas, objetivos, prazos. Tudo aquilo que transforma nossa vida numa espécie de estratégia exata, que foi minuciosamente planejada. Tudo aquilo que nos dá uma sensação de estabilidade, de ter uma base fixa; uma sensação de que estaríamos “fazendo a coisa certa”. Eu acho que é esse o “x” dessa questão; é sobre isso que quero falar. Quero falar sobre essa avaliação que nos fazemos constantemente para dizer se estamos ou não “no caminho certo”, seguindo o script ou se estamos “falhando nesse processo”. Eu sei, parece duro. Mas quem nunca fez isso? 

Sou um tipo 1 no Eneagrama. Conformidade no DISC. INTJ (Introvertido, Intuitivo, Racional e Crítico) no MBTI. Quem conhece o mínimo dessas coisas já consegue ter uma ideia do  tipo da pessoa. Eu posso afirmar que nunca conheci alguém tão encanado com tempo quanto eu. Tanto que relógio é um adereço que você raramente me verá sem. Que por sinal ontem sai de casa com um parado. Pensa num cara incomodado porque olhava no pulso e verificava que seu relógio tinha parado às exatas três horas da manhã. “Como não vi isso? Por que não peguei um outro antes de sair?” Você não iria acreditar mas eu ficava arrumando os ponteiros manualmente hora após hora, porque me incomodava ver aqueles ponteiros imóveis. Eu sei, eu sou louco. Estou sempre calculando as coisas. Sejam gramas, quilômetros, minutos, tarefas, prazos; fazendo estimativas de tempo, análises de performances, comparações e ao final balanços que mais parecem vereditos. Sou um compulsivo por controle. Não sei exatamente quando isso começou ou o que desencadeou essa mania de administrar tudo, mas confesso que isso tem gerado bastante ansiedade e algumas frustrações, e percebo que a cada ano me afundo mais nessa armadilha. Porque isso é uma armadilha. 

Tenho (“tenho”) que controlar meu peso pra não ficar gordo. Tenho que controlar a medida da circunferência abdominal porque segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) acima de 90 centímetros no homem aumenta o risco de doenças cardiovasculares. Tenho que ingerir vitamina C após as refeições, e não ingerir cálcio junto, porque sou vegetariano e tenho que ficar atento à absorção de ferro. Tenho que controlar minha performance na corrida, porque já faz uns 3 anos que não corro um percurso maior do que o de costume e  quero fazê-lo mais rápido. Estou pensando já numa terceira especialização sendo que nem terminei a primeira. Agora inventei de fazer musculação e se me deixarem quero fazer avaliação física semanalmente, para controlar percentual de massa magra e gordura corporal, mesmo o instrutor já advertindo que isso é encanação demais. Neste primeiro semestre de pós graduação fechei com uma média final de 9,2 e pensa num cara insatisfeito que resmungou até! Por pouco eu não mandei um e-mail aos professores pedindo esclarecimentos. Mew, nem eu me perdoaria se tivesse feito isso... Eu tive que me controlar me dizendo: “calma... chega... para com isso, você está indo longe demais... relaxa, 9,2 está ótimo...”. E eu só queria entender o que faltou nesses 0,8. Eu sei, eu também tenho vergonha de ser assim, mas quando eu vejo já estou brigando, reclamando, criticando, ou "apenas dando minha opinião" como eu gosto de dizer. E se esse processo não é exteriorizado, tenha certeza de que estou reclamando na minha mente. 

Eu tenho um sério problema com expectativas altas. Cobro isso dos outros e de mim mesmo. Eu já comentei isso aqui, em qualquer teste que faço que meça controle, meticulosidade, concentração, o resultado é altíssimo. Beira fácil os 100%. Eu acho que uns 97/98 chega. Sou hiper focado. Centrado. Controlado. Objetivo. Preciso. Meticuloso. Metódico. Esses adjetivos me serviriam como uma luva. E sendo bem sincero eu já estou cansado disso. Eu estou cansado de ter que ser tão perfeito, tão preciso, tão metódico, tão correto para as outras pessoas. É maçante isso. Estressante. Angustiante. Eu cheguei num ponto que não consigo mais fazer testes psicológicos nem ouvir de alguém que possuo uma das características acima e não me sentir deprê. Não acho mais legal ser tão meticuloso. Sabe quando você não suporta mais passar uma determinada imagem às pessoas mas não consegue se livrar dela? E não é só questão de se livrar dessa imagem, porque isso é o de menos, sinceramente. Eu só não quero mais sentir o peso, a pressão ou a cobrança que os outros depositam em mim, porque eu mesmo já me imponho isso severamente. Você sabe o que é ter medo de errar, de falhar, porque você deixou os outros acreditarem que você seria capaz? É isso. Eu sinto como se afirmasse a todas as pessoas: “deixem comigo, confiem em mim, eu consigo! ”. E depois pra sustentar isso... 

Quando meu pai faleceu a dez anos atrás, eu tinha acabado de atingir a maioridade, eu peguei o leme e fui à frente da família, com uma herança de dívidas, e tinha que ouvir meu irmão debochando: “vai lá super-homem, salva a pátria”. Tinha dois empregos, não dormia, fazia supermercado, pagava as contas sozinho, servia de psicólogo aos demais e assim gradativamente fui assumindo mais e mais responsabilidades. Porque é assim que eu faço, talvez numa ânsia de querer agradar, eu vou aceitando mais responsabilidades e mostrando eficiência, prontidão, proatividade e querendo provar a mim mesmo que vou dar conta de tudo sozinho e ao final me sobrecarregando mais. Mas eu não admito – tampouco eu aceito – algum tipo de lamúria. Eu simplesmente me obrigo a fazer o que tem que ser feito porque eu disse que faria e agora todos estão dependendo de mim. E como é gostosa essa sensação de ser útil...  Como é gostoso saber que você é aquele cara que todos vão olhar quando a casa estiver caindo. Você se sente amado. Mas será que isso é amor? 

O difícil é viver com a missão de ser o Sr. Responsabilidade. E ter de conviver com uma espécie de crítico interno que ceifará qualquer demonstração de cansaço ou de fraqueza. Pensa numa pessoa que se cobra constantemente da seguinte forma: “tira essa bunda da cadeira e vá trabalhar. Seja mais rápido, você está lerdo hoje. Olhe que horas já são e você está aqui ainda. Sai dessa cama e vá correr 10km, de preferência uns 15 hoje porque você não sai desses 10 em 52 minutos. Só por que hoje é domingo?! Você não disse que chegaria aos trinta com duas graduações? Não vai à academia hoje por quê?! Você já foi melhor... Faça isso, faça aquilo, seja mais útil, seja mais ágil, seja mais firme, mais forte...”. Você aí deve estar assustado mas eu juro que é bem assim. É assim que esse meu crítico interno fala comigo. Aliás, é assim que o meu crítico interno falaria com você também, porque é assim que ele enxerga o mundo. Um local que precisa ser posto em ordem e controlado. Se eu começar a fungar com o maxilar cerrado e você ouvir o som da minha respiração apenas pelo nariz, tenha certeza de que estou fervendo por dentro como uma panela de pressão. Tipo 1, lembra? Seu vício é uma raiva contida...

Estou fazendo esse texto porque eu tenho certeza que deve existir alguém que se identifique com isso e o primeiro passo é admitir quando queremos mudar. E eu sinceramente preciso mudar. Porque nem mesmo eu estou me suportando mais. Essa espécie de inquisidor que só sabe diagnosticar falhas. Não sei quando foi que fiquei tão chato, quando me tornei tão cri cri, tão dicotômico! E o pior é que eu sei que não existe certo e errado. Eu acho que brigo pelo prazer da briga, porque no fundo eu sei que a pessoa tem a sua razão. Diversas são as vezes que me pego em embates fortes onde só falta eu sacar o dedo na cara da pessoa, e eu vou argumentando, argumentando, até a outra parte ceder. E quanto mais cansado ou sob estresse eu estiver mais debatedor me tornarei.

Hoje após análise eu percebo que esse crítico interno é só um substituto. Qualquer conhecedor mínimo de mecanismos psicológicos perceberia que esse crítico interno assumiu o papel do meu pai na minha vida. Ele se foi há dez anos e este assumiu o seu lugar. E quando penso nisso eu sinto mais raiva ainda, porque eu me sinto mais tolo por saber que tenho consciência desse mecanismo. Eu sempre soube o quanto esse comportamento do meu pai não me fazia bem e hoje ironicamente me coloco, por vontade, sob o mesmo tratamento. É uma piada mesmo.

Mas o pior de tudo. Sabe quando você tem a exata sensação de que sabe o que veio fazer aqui? Eu não sei como, eu não sei por que, mas eu tenho, e sempre tive, uma estranha sensação de que vim aqui pra ser solidário, pra entender as pessoas, pra compreender os seus problema, pra aceitar, tolerar e propor uma ajuda sincera, me unificando a elas, e no entanto me pego às vezes fazendo exatamente o contrário, ficando numa posição de juiz e "avaliando" as situações. E quando isso acontece você não imagina o quanto desapontado eu fico. Se existe um ideal de vida, eu juro que o meu eu gostaria que fosse viver sem luxo algum, me doando às pessoas em ONGs, sendo solidário e humanitário. Ou seja, uma imagem totalmente diferente dessa que descrevi acima.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Apoptose



Estou fazendo pós-graduação. Esse período estudando e trocando experiências tem sido bastante esclarecedor para mim. Consigo mais uma vez constatar algo que já havia percebido: o conhecimento nos instiga. Toda vez que adquirimos informações e elas sintetizam algum conhecimento, esse processo provoca um movimento interno que nos transforma de alguma maneira. Inevitavelmente. Acontece com todas as pessoas. Nem sempre é perceptível a nós mesmos num primeiro momento. Talvez seja mais nítido aos que convivem conosco. Nessa linha de pensamento, observo que a sociedade contemporânea vive um momento crítico, impulsionado por duas situações: de um lado a difusão democrática do conhecimento advinda da internet e do outro as desigualdades sociais e uma intolerância às diferenças. Essas situações criaram um ambiente perigoso propício ao confronto. Neste post, quero associar os movimentos atuais – tidos como fascistas no mundo todo – ao fortalecimento pessoal que foi gerado pela democratização do saber. É o acesso ao conhecimento que gera uma necessidade de posicionamento e atuação por parte das pessoas. Seria então a democratização do conhecimento um erro? Precisamos se opôr a esses movimentos sociais de natureza tão incisiva? Qual a relação entre o conhecimento e a atitude de uma pessoa?

Durante sua vida, você adquire conhecimentos e isso traz a você mudanças significativas. As experiências que você passa, as histórias que ouve, as conversas que participa, os cursos que realiza, os livros que lê, os filmes que assiste e as percepções, associações e conclusões que faz disso tudo, te traz conhecimentos. Quanto mais você participa desse processo, se enriquecendo nesse sentido, mais você absorve conhecimento e consequentemente termina se fortalecendo. Essa força, proporcionada por esse acúmulo de saberes, faz com que você sinta, cada vez mais, uma necessidade de se posicionar frente às situações; de se expressar como você realmente é.

Ao longo da minha vida, a medida que ia adquirindo conhecimentos dos mais variados sentia que ia mudando. Na hora não é consciente, a gente não percebe essa transformação pois ela ocorre gradativamente, abaixo de nossa percepção. Ao longo do tempo, apenas ia me dando conta de que alguns gostos, algumas opiniões e algumas formas de me posicionar frente às situações, que antes eram muito certas para mim, iam ficando para trás. Mas foi na faculdade que eu tive pela primeira vez uma percepção mais clara de que estava mudando. Me lembro que desde o primeiro semestre passei a observar amigos e colegas e os vi mudarem no decorrer dos anos. Me questionava às vezes se aquilo seria uma mudança mesmo ou se seria um comportamento latente que apenas vinha à superfície. Casos que iam desde uma pessoa mais passiva que de repente “aprendia” a se colocar e aumentava o tom de voz nas discussões, até casos de pessoas assumindo uma orientação sexual diferente. De início sempre me parecia que esses comportamentos eram inesperados. Mas hoje chego a conclusão que o processo é gradativo. A pessoa vai se fortalecendo aos poucos a medida que vai ganhando conhecimento e então passa a externar as suas ideologias, preferências e opiniões próprias. E pode até acontecer inconscientemente também. Hoje tenho a opinião de que o conhecimento empodera o indivíduo e esse empoderamento pessoal o faz se revelar como pessoa. Inevitavelmente ele vai se mostrar como é. Haverá uma necessidade de se posicionar, de se expressar, de fazer valer os seus direitos.

Retornando à época da faculdade. Passei então a me observar melhor em busca de encontrar alguma transformação e conversando a respeito com pessoas próximas a mim constatei que realmente elas ocorriam. Eu já não era mais o mesmo que tinha iniciado a faculdade. Então, associei esse “fenômeno” ao indivíduo que cursava uma faculdade. Concluindo na época que todo aquele que fizesse um curso superior inevitavelmente iria mudar. Mais tarde descobriria que não foi cursar uma faculdade o mote principal da mudança, mas sim o conhecimento que se é adquirido numa faculdade, e que pode ser adquirido em qualquer lugar. O foco não está na faculdade. Está no conhecimento. O saber é o responsável por nos provocar inquietações; movimentos internos que nos alargam; que encorpam nossa personalidade; que trazem coragem e força para nos assumirmos como somos ou como queremos ser tratados. Conhecimento daquilo somos. Daquilo que podemos ser. Daquilo que queremos ser. Assim como conhecimento daquilo que não gostamos nem aceitamos... 

Diante de todas essas reflexões, percebi que o grande poder no mundo nunca esteve em espadas ou armas. Tampouco estava no dinheiro. O poder nunca se encontrou em fontes tangíveis. Desde o início dos tempos, a fonte de qualquer poder está no saber. É o conhecimento que move o mundo. No antigo Egito, por trás dos faraós existiam os sacerdotes que detinham o conhecimento místico dos vivos e dos mortos. Nas monarquias, por trás dos reis existiam os conselheiros que detinham o conhecimento das estratégias de guerras e de política. Nos dias atuais, por trás de governos do mundo todo existem órgãos inteligentes que mapeiam e traçam cenários geopolíticos futuros. O poder nunca estará no corpo que avança, mas sim na cabeça pensante que o guia. Mas se no passado o conhecimento era de domínio particular, hoje o conhecimento é de domínio público. Especialmente hoje em se tratando de internet. A internet globalizou o conhecimento democratizando o acesso. E isso é um problema mais sério do que imaginamos. Nas relações de poder, desde o início dos tempos o conhecimento se encontrou em domínio de poucos porque era conveniente essa situação. As elites monopolizavam o acesso ao saber e dominavam assim o resto do povo que se destinava passivamente à subjugação. Mas conhecimento é poder e hoje empoderamos a todos democraticamente. Na atual era do conhecimento, como administrar uma sociedade de desigualdades históricas em que todos os seus indivíduos podem se empoderar? Como administrar uma sociedade de indivíduos que se empoderam mas têm baixa aceitação e tolerância às diferenças entre si? O empoderamento pessoal, oriundo de um maior acesso ao conhecimento, tem feito as pessoas: questionarem as atuais relações de poder no mundo; conhecerem e exigirem seus direitos; se posicionarem fortemente com ideologias, conceitos, preferências, crenças. Mas infelizmente em lugar nenhum do mundo se empoderou na mesma proporção para uma cultura de tolerância e aceitação.

Eu não estou dizendo que as pessoas estão mais inteligentes. De forma nenhuma. Acesso ao conhecimento não significou necessariamente maior erudição ou inteligência. Eu friso o fato do indivíduo ter hoje apenas mais acesso ao saber. O fato em si é empoderador. Mas são indivíduos em sua grande maioria imaturos psicologicamente; socialmente; politicamente. E não lidam bem com as frustrações. É como darmos voz e poder de decisão a uma criança – e essa analogia descreve perfeitamente os nossos tempos. A difusão democrática do conhecimento tem empoderado por igual  indiferença e fanatismo, e não vindo acompanhada de uma cultura de tolerância, aceitação e respeito com as diferenças. Isso talvez explique movimentos muito próximos do anarquismo, assim como a ascensão da “extrema direita” no mundo todo. Demos voz a um indivíduo imaturo para viver numa sociedade que historicamente o segregou, o oprimiu e o excluiu. Misture esse “ódio enrustido” e talvez entenderá a origem desse momento doido que vivemos que nem sociólogos, filósofos, psicólogos conseguem decifrar ao certo. Pessoas pedindo a volta do regime militar no Brasil; crescentes ideias nazistas-fascistas mundo a fora; em todo canto inversão de valores... Vivemos um caos difícil de ler. Difícil de entender. Difícil de administrar.

Concluo que o livre acesso ao conhecimento não é um problema. É um problema uma difusão de conhecimento que não vem pareada de uma cultura de tolerância, numa sociedade excludente. Não quero acreditar que a sociedade contemporânea passará por um processo de apoptose, em que chegará num ponto em que se autodestruirá. Quero imaginar a sociedade apenas como um grande sistema em que se está aumentando gradativamente as energias que circulam por ele. Ou encontramos formas para que essas energias possam circular de forma eficiente, ou então elas destruirão o sistema.

domingo, 17 de julho de 2016

E U



Um amigo, estudante de Filosofia, está prestes a terminar o curso. Está na fase de elaboração do TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Ele veio me procurar pedindo uma contribuição minha para a sua obra. Ele acompanha o blog e admira o jeito que escrevo. Me deu seu tema e pediu minha opinião. Preciso mencionar que fiquei lisonjeado? Preciso mencionar que fiquei sem jeito até? É verdade também que fiquei surpreso. Por dois motivos principais. Primeiro porque ele é um seminarista, podia pedir orientação aos seus colegas e superiores mas está recorrendo a uma fonte externa. Ponto para ele. Segundo porque ele estuda filosofia numa instituição católica e é seminarista. Combinações perigosas... Filosofia e religião juntas é quase como trabalhar com energia nuclear. Os ganhos e os riscos são igualmente elevados. Não me pergunte por que mas sempre vi assim. A verdade é que tanto ele quanto eu sabemos que um TCC é um trabalho acadêmico formal, de cunho científico, que exige “referências sérias” e que disso resultará uma nota de aprovação. O que para mim sempre foi uma baboseira do começo ao fim. São “n” os motivos. Combinamos então que escreverei aqui um post em cima do tema trazido e espero sinceramente que isso “contribua” a ele de alguma forma. Assim como aos demais leitores. É verdade que gosto, sim, de filosofia. Mesmo sem entender muito. Assim como é verdade que estou sempre pronto a dar o meu ponto de vista sobre as coisas. Mesmo sem ser chamado. E eu não tenho a menor ideia sobre como vou escrever sobre o tema que ele me trouxe...

Como um bom tema, esse que ele me trouxe faz a gente pensar e repensá-lo ao longo da vida. Consequentemente, qualquer opinião ofertada aqui está sujeita a ser refutada no futuro, pelo próprio autor. Antes de começar, já peço desculpas se o português aqui ficar rebuscado e o raciocínio complexo demais. Isso é ranço da tradição da filosofia. Não somente da filosofia. Tomemos o “juridiquês” como exemplo. Coisa que sempre detestei. Não suporto pessoas que falam ou escrevem difícil, porque uma coisa é você falar a acadêmicos ou a um grupo de intelectuais e eruditos e seu único objetivo é impressionar. O que mesmo assim acho desnecessário. Outra coisa é você saber que está falando com todo tipo de público (como o que frequenta esse espaço) e ficar se utilizando de palavras difíceis e sentenças complexas, dificultando a compreensão. Repito. Ranço de um passado.

Imagino que a essa altura deva estar curioso sobre o tema, mas pedirei sua licença novamente para fechar um parênteses aberto no primeiro parágrafo. O porquê disse que um TCC é uma baboseira do começo ao fim. Penso assim porque num TCC não há produção de conhecimento. Salvo raríssimas exceções. Na minha opinião deveria ter. Você estuda quatro/cinco/seis anos e no fim não tem liberdade para trilhar por caminhos que outros já não passaram. Quando fiz o meu por exemplo, lembro-me do meu orientador me cobrando a todo momento que eu deveria referenciar alguém. Jamais poderia concluir nada que partisse única e exclusivamente do meu próprio cérebro, sem uma referência. Num TCC, o aluno deve sempre referenciar um autor, escrever numa linha de raciocínio cartesiana, seguindo uma devida canaleta. E muitas vezes nem poderá ser “qualquer” canaleta. Nem se desviar dessa canaleta ao longo do trabalho! Você colocará uma viseira e seguirá o Autor (ao céu ou ao penhasco)... Já não bastasse julgarem o aluno, formado pela própria instituição, como incapaz de produzir algo inovador por conta própria, muitas instituições ainda pedem que esse trabalho seja feito em grupo! O que é ainda mais controverso, porque num grupo de cinco pessoas por exemplo, no muito três fazem o trabalho. Sem falar que você tem que ouvir do orientador: “diga o que o autor disse, apenas usando outras palavras”. (Oi?) (Como é?) Qual a diferença disso e plágio? E não me venha dizer que esta foi uma experiência que vivi na minha faculdade, porque nós sabemos que na grande maioria das instituições funciona da mesma forma. Isso não é culpa do orientador. Como também não é culpa da instituição. O responsável é o nosso velho modelo de ensino. Soaria ilógico uma universidade exigir que um aluno criasse algo novo num TCC, quando somos ensinados desde sempre a reproduzir conteúdos. Assim nos vemos passando adiante as mesmas (es)(his)tórias e encenando a mesma peça; mudam-se os cenários e as personagens mas o enredo permanece o mesmo. Seja na academia. Seja na vida. Seja na política... Deixo isso apenas para pensarmos...

O tema que meu amigo trouxe é Identidade Pessoal. Minha opinião aqui será rasa e superficial. Não espere algo profundo ou substancial. Não vou invocar um filósofo aqui. O que é mais provável que aconteça é que, como não sigo uma linha de raciocínio cartesiana, eu saia totalmente da casinha. Ou como dizem, tente pensar fora da caixa. Afirmo também que nunca existirá uma resposta certa ou definitiva para esta questão, porque se trata de uma visão subjetiva.

A questão Identidade Pessoal, em filosofia, trata das condições que explicam que uma pessoa é a mesma no decorrer de sua vida. Por exemplo, nas seguintes perguntas: Você é a mesma pessoa de anos atrás? Com base em que você afirmaria ou negaria isso? Como alguns podem observar ao analisar essas questões, ocorre o que ficou conhecido como “problema mente-corpo”. Existem duas correntes importantes relacionadas na resolução desse problema. O dualismo e o monismo. Basicamente, enquanto os dualistas vêem mente e corpo como coisas distintas, os monistas vêem uma coisa só. No entanto, ainda dentro do monismo, existem aqueles que consideram que mente e corpo são matéria, aqueles que entendem que ambos estão na mente e um terceiro tipo que seria “neutro”, segundo o qual existiria uma terceira substância que não seria física nem mental.

Como eu responderia, hoje, as duas questões acima? – Eu sou e não sou o Jonas de anos atrás, porque enquanto o Jonas existe, eu nunca existi! O Jonas é uma pessoa com nome, é uma ideia com formato. Intenção. Consciente. Aos quinze anos de idade, eu tinha uma professora chamada Maristela que me disse algo que eu nunca me esqueci. Ela me contou que sua mãe lhe dizia a seguinte frase: “tudo o que você dá nome, existe!”. Utilizo essa frase como base. O “Jonas” existe. Como percepção, mas na verdade o eu nunca existiu. O Eu é uma fabricação idealizada da percepção humana, que envolve questões biológicas, culturais e sociais. O homem, em seu delírio antropocêntrico, acredita poder se desvincular do todo e ter domínio sobre isso. No entanto, o homem é parte do todo. E o todo é fruto da percepção. De quem?! - você deve estar se perguntando agora. Aí entra a minha religiosidade... A Mente (que ao longo da história ganhou inúmeros nomes) é a origem do todo. Penso que essa Mente experiencia através da percepção humana – do corpo. O corpo (as sensações, as experiências, os sentidos) não é secundário em relação a mente, porque não existe essa relação, tudo seria a mente. Não exatamente da forma que fomos culturalizados aqui no Ocidente, negando os instintos e o próprio corpo, através de um pensamento “socrático-platônico-aristotélico”, que foi impulsionado pelo cristianismo (que nunca passou de um platonismo para o povo). Eu até entendo que essa “estratégia” teve sua finalidade, naquele período, na Grécia. Precisava-se de leis. O pensamento de Platão, com uma ideia cristalizada de verdade, ordenou o povo. Assim como o cristianismo fez em seguida com a ideia de culpa e pecado. O pensamento de Platão atingiu as elites, enquanto o cristianismo o povo. Ambos são métodos eficazes de controle, organização – e dominação – das pessoas. Por isso penso que a filosofia do Ocidente e o cristianismo são filhos do mesmo pai, e como todos os irmãos, às vezes não se bicam!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O medo de mexer no psicológico



Primeiramente gostaria de agradecer pela recepção da última postagem. Há muito que eu não via a quantidade de acessos como teve o blog em tão pouco tempo. Gostaria de aproveitar para agradecer aos visitantes que são de países onde a língua nativa não é o português - Tenho muita curiosidade sobre vocês. Saber que uma pessoa do outro lado do mundo por exemplo está neste momento lendo essas palavras... Fico imaginando se é brasileiro, se é alguém que fala o idioma, qual é a cultura do local em que vive e o que pensa essa pessoa sobre o que encontra aqui. Consigo levantar algumas informações porque a plataforma desse espaço permite explorar as visitas. Identificar de onde elas chegam; se é diretamente ou por algum mecanismo de busca; se é um retorno ou é a primeira vez; qual é o tempo permanecido aqui no blog; qual o caminho percorrido por essa pessoa aqui dentro etc. Obviamente que isso é possível porque o sistema identifica justamente o endereço de IP do visitante, mas como muitas vezes o IP é dinâmico, uma pessoa poderia acessar frequentemente o blog mas a mim apareceria sempre como sendo sua primeira visita. O que é uma pena pois não consigo explorar mais esse visitante, e consequentemente acabo desconhecendo as suas preferências. E é mais ou menos sobre isso que quero falar...

Como sei muito pouco – praticamente nada – do visitante em si (salvo algumas exceções), fico imaginando como ele é. Salvo exceções porque alguns são seguidores do blog, então eu entro no blog da pessoa também e acabo a conhecendo. Outros me encontram em redes sociais. Na vida pessoal as vezes. Mas a grande maioria eu não faço ideia de quem seja, como seja e o que pensa. E eu gosto de saber o que as pessoas pensam. A respeito de tudo. Eu gosto na verdade de conhecer as pessoas, psicológica e emocionalmente falando. Mas conhecer mesmo, por trás da máscara social. Quem realmente você realmente é. Se a pessoa me permite até, eu “invado” a sua particularidade. Porque eu gosto de investigar a fundo. E também de “mexer no psicológico” das pessoas – como alguns brincam. E é justamente isso que gostaria de trazer hoje: por que algumas pessoas não permitem, nem se permitem, mexer no seu psicológico?

Uma vez, um colega de uma empresa em que trabalhei, me disse o seguinte: “Você busca uma interpretação pra tudo e pra tudo você tem uma interpretação. Mas aqui você não pode ser assim.”. Ele falou tão simples e foi de uma percepção tão profunda que eu nunca mais me esqueci daquilo. Ele não me conhecia bem, trabalhávamos juntos a poucos meses e nosso contato nunca passava da protocolar rotina do trabalho. Mas foi aí nesse dia que tive a percepção de como o meu jeito de ser era transparente. Ao passo que gravei muito bem também o final de sua frase “aqui você não pode ser assim.”.

Aos 7 anos de idade mudei de uma cidade para a que vivo atualmente. Me lembro que era quase meio do ano, peguei a turma já formada e as aulas em curso. Passadas poucas semanas, me lembro de certo dia levantar a mão apontando para o quadro: “Dona, ali não se escreve com letra maiúscula?”. Brotou um riso desconfortável. “Não, Jonas, ali eu posso escrever como eu quiser, com letra maiúscula, minúscula, não faz diferença.” Continuei com a dúvida: “Dona, por ser um substantivo próprio não deveria ser escrito com letra maiúscula, é nome próprio.” Aquela mulher me fuzilou com o olhar e virou-se para o quadro me ignorando por completo, enquanto eu escutava os murmurinhos vindos do fundo da sala: “lá vai o sabidão querendo saber mais que a professora”. 

Aos 10 anos de idade, em uma das brigas – sem sentido – com o meu pai, vem ele e começa: “Você tem que acatar tudo o que eu falo!”. “Por quê?”. “Porque eu sou o seu pai!!”. “Mas você não é meu dono.”. E sai andando... já sabendo que iria apanhar.

Em um site, paguei para obter um teste que mapeia algumas dimensões da personalidade, com base nas respostas de uma série de questões sobre vários assuntos. O que segue é o resultado da dimensão “Abertura a novas experiências”:

Nem todos vão ficar felizes com a sua mente aventureira. Muitas pessoas estão satisfeitas com as ideias que servem bem a elas e à sua cultura, e com a visão a que se acostumaram sobre o que é ou não verdade. Elas não se animam com a perspectiva de sair de sua zona de conforto. Outras têm medo de novas maneiras de pensar e de formas criativas de resolver problemas porque são um pouco frágeis, no sentido em que têm problemas em manter a serenidade em seu mundo atual e não querem que alguém, como você, por exemplo, expanda as fronteiras de seu cosmo intelectual e cultural. Assim, não se surpreenda se as suas ideias pouco convencionais, às vezes, forem causa de críticas a você, ou mesmo se as pessoas fugirem da exploração de novos territórios da mente que você acha tão estimulantes.

Preciso falar mais alguma coisa? Eu não consigo entender. Eu juro que respeito a opinião dessas pessoas, já me deparei com muitas ao longo da vida. Eu só não entendo por quê. Por que a recusa de pensar “fora da caixa”? Por que não questionar o status quo? Por que alguns assuntos ainda hoje não podem ser discutidos abertamente? Por que algumas pessoas se escondem atrás de um absolutismo intocável recusando iniciativas e posicionamentos diferentes? Eu só não consigo achar uma resposta...

Apesar disso o resultado desse mesmo teste finaliza assim:

Apesar de algumas respostas negativas ao seu modo de pensar, muitas pessoas acham os seus pensamentos progressistas e a sua vívida imaginação muito atraentes. Algumas acham as suas maneiras novas de pensar e a sua disposição para explorar, que os outros acham intimidadoras, uma qualidade muito atraente. Outras almas criativas encontrarão em você uma companhia na jornada para o desconhecido e ficarão felizes com o companheirismo. As conversas com elas serão animadas e inovadoras e acenderão a imaginação, tanto a sua quanto a delas. Mesmo as pessoas menos curiosas que você ficarão impressionadas com a sua coragem de pensar e acreditar no que para elas é inimaginável e com a sua disposição de embarcar em aventuras da mente que elas achariam perigosas ou amedrontadoras. Para essas pessoas, você pode se tornar um mentor sobre o lado mais louco do pensamento e da crença, empurrando-as em direção às ideias criativas e progressistas que você acha tão interessantes.”.

Quer saber o que eu penso sobre tudo isso? Não dá para viver uma vida na superfície do nosso psicológico. Eu compreendo que nem todos estão prontos para mexer em certas partes, porque muitas vezes envolve feridas não cicatrizadas e traumas complicados, mas acredito que em algum momento é preciso mexer no psicológico. E digo mais ainda. Acredito que chega um momento em que a própria vida vai nos desnudar. Então, sempre que possível, desnude as pessoas. Sempre que possível, seja desnudado por elas. E troque experiências. Não tenha pudores. Como disse Caetano: “De perto, ninguém é normal”.


domingo, 12 de junho de 2016

Eu prefiro ser feliz do que ter razão



Notebook. Celular. Fones de ouvido. “See You Again” rolando no Youtube. Xícaras de café. Janela aberta, uma brisa fria, ambiente propício... Tudo pronto para um novo post! É isso aí, resolvi continuar com esse espaço...

Como pode ver mudei algumas coisas por aqui. Ainda não está bem do meu gosto, mas vou mudando aos poucos com o tempo. Descobri que apesar das muitas ferramentas disponíveis para estruturar e alterar o blog, nem todas convém. Por causa de alguns detalhes técnicos como estrutura, larguras, cores originais etc., é um pouco mais complicado do que imaginei mudar esse espaço sem prejuízo do que já tem aqui.

Em primeiro lugar terei que confessar a di-fi-cul-da-de que está sendo aceitar mexer aqui. A cada mudança, quando eu vejo o resultado fico assustado. Vontade de não mudar mais. Parece que estou abandonando algo tão importante. Deixando algo para trás... E não é exagero, esse blog terminou se tornando pessoal e importante demais para mim. Alterá-lo é me alterar. E vice-versa. Acredite, rola um movimento simbiótico aqui. E voooltamos àquela história do post anterior: a questão do desapego. Identificamos uma necessidade de mudança, queremos mudar, mas nos agarramos boicotando qualquer movimento. E não dá né gente, a vida precisa prosseguir, e como diz aquela velha frase: “mudança é a lei da vida”!

Então, vamos ao post. Vim dividir algumas novas impressões que estou tendo em relação à vida, ao meu comportamento, em como estou mudando ultimamente. Algum tempo atrás se você me perguntasse se eu precisava de sua ajuda, a minha resposta seria um seco e sonoro “não”. “Eu faço sozinho”. “Eu dou um jeito”. “Eu me viro, obrigado”. Essas eram as minhas respostas típicas a praticamente tudo e o meu posicionamento em relação à vida. Fazer sozinho. Nunca depender. Ser individualista. Autosuficiente. Orgulhoso. Durão. Essas eram minhas características principais e com muito empenho as sustentava. Gostava desse papel, fazer tudo do meu jeito, arcar sozinho, nunca ceder um milímetro e mesmo sofrendo ou com dificuldades no caminho não pedir ajuda, tudo para no fim me orgulhar de alcançar sozinho o topo. E sozinho lá permanecer... Pois é este o fim de quem vai por esse caminho. A pessoa que é muito orgulhosa, durona, que não se permite ajuda, que acredita que para vencer não precisa de ninguém, pode sim alcançar títulos e troféus, ter histórias para contar, mas não haverá ninguém no pódio para ouví-las. O topo para essas pessoas é solitário.

Essas conversas do escritório não me fazem sentido”. “Acho que não irei à confraternização”. “Não vou àquela festa”. “Porque estarei ocupado”. “Eu tenho que...”. “Eu preciso...” Essas sempre foram as minhas desculpas típicas para me esquivar de colegas, de amigos, de familiares. Esquivando-me das pessoas que só querem estar comigo e demonstrar algum carinho ou afeto. Mas de alguma forma eu renunciei até a isto. “Eu não preciso disso”. “Em que isso me acrescentará?”. Pensava. Agreguei assim com o tempo alguns adjetivos. Antissocial. Chato. Frio. Sem sentimentos. E isso é contraditório porque sempre fui muito sensível e por dentro tudo o que eu mais queria era ser aceito por essas pessoas. Estar e me conectar com elas eram as minhas reais necessidades. Por esse velho caminho percebi quantas vezes anulei as pessoas ao meu redor, não me permiti entrosamento, com a falsa crença que elas me atrapalhavam. Parar para conversar, dar risadas, me relacionar mais intensamente com as pessoas eram coisas que me atrasariam. Porque eu estava ocupado demais na perseguição dos meus objetivos. Preocupado demais com os meus problemas. Orgulhoso demais para dividir o meu sucesso. E foi assim que com o tempo acabei percebendo que eu estava indo contra tudo o que eu realmente sentia.

Porque muitas das vezes que eu disse “não”, eu queria ter dito “sim”. Muitas das vezes que eu disse “adeus”, eu queria ter dito “não se vá”. Todas as vezes que eu dei a impressão de que alguém não era tão importante, por dentro uma parte de mim se partiu também. Mas eu jamais admitiria... Que eu estava errado. Que eu estava com medo. Que estava doendo. Que as vezes ainda dói! E assim eu acabei descobrindo que na prática a vida não seria como eu aprendi na infância. Um dia me ensinaram que para ser homem eu não poderia fracassar. Eu não deveria depender de ninguém. Nem dos meus próprios pais. Porque eu deveria ser forte, duro, independente e isso significaria nunca ceder. Não olhar para trás. Não chorar. Não me arrepender. Não pedir ajuda. Não ser frágil! Porque do contrário eu iria sofrer! E eu acabei descobrindo que eu tenho muito medo de sofrer... E assim eu construí muros ao invés de pontes. Me protegi com uma carcaça dura e impenetrável. Aderindo a alguns verbos. Recusar. Reprimir. Ignorar. Anular. Afastar. E com o tempo alguns substantivos aderiram à mim. Solidão. Tristeza. Vazio. Saudade... Eu preferia a morte a admitir que havia me arrependido de algo ou estava com saudade de alguém. Fazer isso seria como me partir ao meio! E é exatamente assim que me descrevo hoje: em desconstrução!

Aos poucos vou desconstruindo esse padrão. Ouvindo mais o coração. Dando mais espaço à criança interior do que ao adulto megalomaníaco. Tentando transparecer mais sentimentos. Pedindo e aceitando ajuda. Admitindo que eu não sei a verdade nem terei todas as respostas. Tentando rir mais. Me expondo mais. Sentindo mais. Me permitindo mais. Crescendo junto! Porque hoje eu sei que eu quero ser feliz, e não ter razão...

Talvez você entenda a minha história. Talvez ela até faça sentido a você. Eu só queria dizer que eu já fui assim, que eu já fui por esse caminho, mas eu descobri que ele não vale a pena. Agradeço por ter percebido isso ainda jovem. Torço para que você se encontre também. Nós precisamos de ajuda. Nós não estamos sozinhos. Sofrer todos nós vamos um dia, mas sempre existirá uma nova saída; um novo amanhecer; um novo horizonte; uma nova ideia; uma nova pessoa, que vai nos lembrar que vale a pena continuar acreditando.

Obrigado por chegar até aqui. A gente se vê...


domingo, 17 de abril de 2016

The end


"São águas passadas. Escolha outra estrada. E não olhe. Não olhe pra trás."


Estou longe do blog há exatos 8 meses. Nesse período aconteceram tantas coisas que renderiam aqui bons textos, sem dúvida. Mudei de emprego – em circunstâncias desafiadoras. Me tornei vegetariano – processo difícil mas que hoje recomendaria a qualquer pessoa. Retomei os estudos acadêmicos, estou fazendo pós graduação. Isso me traz a certeza de que a vida é um movimento contínuo, onde estamos sempre nos transformando, e se pararmos poucos instantes para analisar isso veremos que sempre podemos ter boas reflexões. Tive tempo de vir aqui e registrar essas reflexões se quisesse. Mas não o fiz por “n” motivos que agora não convém explicações. Sumi. “Tirei o time de campo” e fiquei da arquibancada assistindo o jogo. E que jogo...

Neste abril, o blog está completando 8 anos. Oito anos com a mesma cara. O mesmo layout, a mesma cor de fundo, a mesma imagem central, a mesma configuração, só com pequenas alterações estruturais ao longo dos anos. O que mudou significativamente foi o conteúdo em si, a forma do autor de ler e interpretar o mundo. Mas eu sinto em dizer que já não sei mais o que fazer com esse blog. De verdade. Nesses oito meses fora cheguei a conclusão que ou esse espaço se transforma ou termina de vez (abrindo ou não a outras possibilidades, ainda não sei). Sou expressivo e sinto necessidade de expôr minhas ideias, se não o fizer aqui nesse canal será em outro. No blog estou sentindo falta de novidade, de transformação. E imagino que é devido às mudanças internas que foram ocorrendo ao longo desses oito anos. As mudanças que ocorrem dentro de nós depois repercutem no externo de alguma forma. E aí vai até uma dica: se você quer mudar a sua vida, comece mudando algumas coisas em si mesmo. A medida em que você investir em autoconhecimento, que adquirir novos valores, que mudar alguns conceitos, que passar a enxergar a vida de forma diferente, inevitavelmente ocorrerá uma mudança externa. E isso vai de passar a frequentar novos ambientes até de conhecer novas pessoas e deixar para trás algumas coisas. Mude! Eu recomendo. 

A gente sabe que está mudando quando já não olhamos mais tanto para trás. Ou porque o “para trás” já ficou muito lá trás ou porque o “para trás” já não nos interessa mais. E a gente se desprende disso. A gente sabe que está mudando quando voltamos a fazer planos. Quando já não tememos tanto o futuro... nem a morte. Aos 20 anos, eu comecei esse blog dizendo que tinha medo de mudanças. Mas hoje vejo que o medo não é exatamente de mudança, é de fins. Usando à psicologia: é o velho medo da morte, do desconhecido. A morte a que me refiro aqui representa o final. O término de um processo seja ele qual for. No ciclo de vida de um produto tem a introdução, o crescimento, a maturação, a saturação e o declínio. A nossa vida é muito parecida, o medo que temos de mudanças é por não aceitar a fase de declínio, pois é difícil admitir que algo vai acabar. Dói dizer adeus. E dá mais medo desconhecer o que vem a partir daí. Então algumas vezes nos agarramos a cadáveres ao longo da vida, tentando manter viva uma ideia daquilo que já nem existe mais. E sinto dizer isso não é saudável. Se você parar para pensar na sua vida, quantos relacionamentos, sentimentos, pensamentos, crenças, você mantém que não te fazem bem, que não te agregam nada, mas você continua firme segurando esses cadáveres? Sim, cadáveres. Porque estão mortos! Podem estar vivos na sua mente, mas não na sua vida efetivamente. Já não te trazem mais nenhum benefício. E sustentar esse processo é como ter um fruto que não está maduro mas também não está podre, no entanto permanece na árvore, sem vínculo.

Você deve estar se perguntando onde quero chegar com esse texto.

Fazer você refletir sobre os encerramentos de ciclos. Esse blog está completando oito anos e dói realmente em mim ter que dizer adeus. Mas esse espaço já não traz mais os benefícios que um dia trouxe. É um adeus então? Talvez. O que vai determinar isso é a potencialidade que isso tem de se transformar. A mim morte nem sempre é fim. Se a gente for filosofar um pouco mais essa questão, a morte é só a abertura para uma nova possibilidade. Um re-começo. A minha experiência, nos últimos oito anos, me fez perceber que a resistência que temos de mudar ou de aceitar as transformações naturais da vida é decorrente da não aceitação da morte como parte do processo. Criamos uma crença de que a morte é ruim porque é o fim de tudo. Assim tudo aquilo que encerra, que rescinde, que se desfaz, que parte, inconscientemente repudiamos. E como desconhecemos efetivamente o que vem depois do fim, imaginamos o pior.

Mas o que a gente deveria aprender ou nos dar a chance de descobrir é que todo fim abre para um novo começo. O fim abre a possibilidades antes não vistas. A caminhos não explorados. A talentos não descobertos. A habilidades nunca utilizadas. Toda vez que passamos pelo término de um ciclo, na hora é difícil, mas atravessado esse deserto agradecemos muito. Quem nunca após um processo doloroso de uma separação, de uma recuperação de crise, de cura de uma doença, de superação de um período difícil, se descobriu melhor do que antes? Todos nós já passamos por isso. É quando lá na frente a gente finalmente olha para trás e pensa: “até que valeu a pena”. O fim é sim inevitável, mas ele é benéfico ao nos dar a chance de crescer. E crescer dói, a gente sabe. Mas é necessário, né gente.

Obrigado.


Jonas Aparecido de Souza


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"Sense8" faz pensar



Parabéns aos irmãos Andy e Lana Wachowski e J. Michael Straczynski pela criação e produção de Sense8. É uma série original, ousada e “cutuca” o espectador porque mexe com várias questões sociais, pessoais e familiares do mundo contemporâneo, sem ser piegas, sem ser chata moralista, com uma boa dose de ação, emoção, humor e reflexão. A trama reside nas relações interpessoais e no sentimento humano compartilhado, entrelaçando as histórias de oito personagens espalhados em oito cidades ao redor do mundo, desenhando um cenário interessante e multiculturalista. Acredito que a maior contribuição dessa série aos espectadores, além de entretenimento, é a capacidade que ela tem de nos fazer pensar.


- "Estou perdendo a cabeça."
- "Não, ela está apenas se expandindo."


terça-feira, 4 de agosto de 2015

MADEEEEEIRAA!



Estamos vivendo um tempo particularmente muito diferente do que já vivemos. Eu vou partir deste princípio para defender meu ponto de vista. Posso concordar que serei radical em algumas colocações, mas convido você a debater comigo este meu ponto de vista e constatar que a afirmação seguinte faz bastante sentido. Hoje nós perdemos a noção de futuro, e nós não sabemos o que fazer!

Mais do que qualquer outra época, o futuro tem se diluído gradativamente. Sim, falo com a propriedade de alguém de 27 anos, que apesar da pouca idade vê diferenças muito significativas nas últimas décadas. Algumas delas então. Quando criança, por volta dos meus sete anos de idade, me lembro que era bastante comum os adultos ao meu redor me perguntarem qual era o meu plano de vida, qual era o meu projeto para o futuro. Observava nos mais velhos, tanto de minha família como da vizinhança onde morava, uma motivação a criar uma carreira profissional; observava que eles construíam suas vidas muitas vezes trabalhando para uma única empresa até. Na escola, nós tínhamos uma preocupação grande em estudar, em adquirir conhecimentos que nos garantissem uma melhor condição de vida no futuro; eu me lembro que estudar era muito importante na construção de um futuro melhor. Os relacionamentos também eram mais duradouros, mais sólidos, assim como me pareciam mais importantes, as pessoas se esforçavam mais para manter laços de amizade, de namoro, de casamento.

E por que isso tudo foi importante? Do meu ponto de vista acredito que isso sempre será importante para a manutenção dessa sociedade que criamos. Uma sociedade baseada – ainda – por instituições verticais, com poderes centralizados, centralizadores, que só faz sentido enquanto temos uma noção de futuro, enquanto temos a crença da existência de um amanhã. Enquanto acreditamos que no futuro as coisas serão (ou poderão) ser melhores, justificamos qualquer investimento nosso de energia e tempo. “Vou estudar muito hoje, para obter um trabalho melhor amanhã”. “Vou dedicar minha energia e meu tempo extra neste trabalho, para construir uma carreira nesta empresa”. “Vou sacrificar desejos e vontades efêmeras, para realizar um propósito futuro”. “Para se construir uma vida leva-se tempo, então para gerir bem um país também”. A nossa sociedade, da forma como ela foi estruturada, precisa então da crença de um futuro, precisa que as pessoas invistam sua energia e seu tempo no presente objetivamente, concentradamente, em alvos únicos para que ela possa se manter.

O problema é que a situação mudou radicalmente. E tem mudado rapidamente. A realidade hoje é tão assustadora, tão precária e necessita de medidas tão urgentes que temos uma sensação de morte eminente. Hoje nós não pensamos no futuro porque em primeiro lugar nós o tememos! O cenário atual não nos garante no futuro nem sequer a vida, quiçá uma condição melhor. Pedir a um jovem que sacrifique seu presente para construir o seu futuro é motivo de piada. Que futuro? Aquecimento global; catástrofes naturais; escassez; roubos de dinheiro público, trapaças políticas; inflação, instabilidade econômica, desemprego crescente; aumento de criminalidade, de violência, de mortes? Não... o futuro dele é incerto. É inexistente. Assim como o seu e o meu. Na idade média, o homem abriu mão do seu presente em nome do Paraíso. Na modernidade, o homem abriu mão do seu presente em nome da Tecnologia, de um Futuro melhor. Hoje nós não abrimos mão de nada! Penso que se Nietzsche nos visse hoje repensaria alguns conceitos de sua filosofia. Ele veria que o niilismo talvez tenha sido modificado; pela primeira vez na história o homem não abre mão do seu presente em nome de nada. Hoje ele vive a vida, desejando curtir e gozar cada instante. Impulsivamente. Despreocupadamente. Unicamente...

Se nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Acredito que esse nosso temor, essa nossa descrença no futuro, é o que nos tem feito viver “melhor” (bem entre aspas) o presente. Hoje pelo menos estamos mais interessados na máxima “carpe diem” do poeta Horácio, “aproveite o dia”. É o que queremos agora. Ninguém quer se sacrificar mais em nome de nada. Vemos evasão na escola. Rotatividade de pessoal nas empresas. Descrença no poder público. Mas lembra que eu disse logo acima que ainda vivemos numa sociedade com instituições verticais e centralizadoras que necessitam de uma noção de futuro para se manterem? Eis aí o nosso problema. E ninguém está sabendo o que fazer. O Estado, o setor privado, a escola, a família, a igreja, todas as intuições estão falindo - nos moldes antigos. Então como gerir uma sociedade que foi estruturada através da crença de um amanhã, quando a realidade atual tem nos tomado essa crença?

Eu só vejo dois caminhos. Ou as instituições reconstroem a noção de futuro no consciente coletivo, fazendo com que as pessoas acreditem novamente no amanhã e assim – quem sabe – voltem a investir energia e tempo para o futuro. Alternativa essa que acho impossível de acontecer. Ou as instituições se transformem completamente a partir de suas estruturas, horizontalizando-se. E quando digo isso é alterar radicalmente mesmo a forma como educamos, como trabalhamos, como nos relacionamos, como exercemos nossa fé. Abrindo a novos formatos, mais flexíveis, mais humanos, mais informais, menos programados e mais momentâneos e circunstanciais. Derrubando conceitos embutidos como projeto de vida, plano de carreira, planejamentos a longo prazo. Para isso todas as instituições precisarão rever seus paradigmas sem preconceito, sem julgamento, com maior aceitação à diferença, à pluralidade, à diversidade. Se não derrubarmos e reconstruirmos o nosso sistema de sociedade agora, será muito difícil determinadas instituições sobreviverem amanhã!



domingo, 5 de julho de 2015

O lado de dentro



Prefiro o sonho à ilusão; no sonho sabe-se que temos os olhos fechados; na ilusão julgamos tê-los abertos.” (Marie de Beausacq)


O universo é infinitamente grande para fora assim como é infinitamente grande para dentro. Uma transformação aplicada no lado externo pode ser também aplicada no lado interno. Existem benefícios na concentração de energia para ambos os caminhos. Não entendo porque passamos toda a vida praticamente voltados apenas ao lado de fora.

Somos criados para nos tornar exímios transformadores do externo, em detrimento de conquistas internas. Um dia saímos de uma barriga. Um dia saímos das cavernas. Saímos do chão, deste planeta, a quem diga que saímos de nosso corpo, da realidade, da vida uns dos outros, que nos acostumamos com uma única direção. “Para fora”. Poucos visam a direção contrária. O mergulhar em si mesmo. O se autoconhecer. O lapidar-se.

Quanto mais se avançou a sociedade mais fomos estimulados a olhar para o que estava fora de nós e transformar o entorno. E nos tornamos bons nisso. Construímos pirâmides. Arranha céus. Aviões. Foguetes. Naves espaciais. Tecnologias das mais variadas. Aprendemos na escola a ler e a escrever antes de conhecer qual o impacto de cada palavra. Aprendemos a conversar antes de ouvir o som daquilo que queremos dizer. Pensamos no que estamos sentindo mas raramente sentimos aquilo que pensamos. Abrimos nossas vidas para outras pessoas adentrarem, nos amarem; para estranhos nos conhecerem. Enquanto o universo expande porta à fora no interior tudo permanece praticamente intacto por nós. Inabitado. Somos desproporcionalmente realizadores internamente.

Na sociedade atual todos estão sempre se movendo, conversando, gesticulando, fazendo barulho, mas nunca nos encontramos em silêncio. Mas isso parece proposital já que o silêncio incita ao que não estamos acostumados: olhar para dentro. E também parece que não queremos isso. Não queremos ouvir os nossos pensamentos. Mergulhar em nossas emoções. Entender os nossos medos. Tocar em certas feridas. Refletir atos ou decisões. Não olhamos para o nosso interior porque talvez temamos a nós mesmos mais do que qualquer coisa neste mundo. E no fundo este receio venha de um único medo: a finitude. O medo da morte. Corremos tanto, construímos tanto, acumulamos tanto, porque tudo o que mais queremos é encontrar um ponto fixo, uma saída para trapacear a morte. Alcançar um estágio permanente, imutável, que nos permita esquecer a efemeridade que é a vida.

Não fazer mais parte apenas dos transformadores externos é uma escolha bem pessoal. Por vezes é necessário abrir mão de algumas ilusões. Outras vezes dói bastante. Mas acredito que quando decidimos parar alguns instantes, nos silenciar, refletir, olhar para dentro e executar revoluções internas, passamos a nos conhecer mais. A viver melhor a vida. A aceitar a morte. Descobrimos um novo espaço. Infinitamente grande. Apenas esperando para ser explorado...


Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?” 
(Fernando Pessoa)



 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Bons sonhos




Há dias em que me sinto meio assim sei lá. Não sei explicar, e pra ser sincero nem quero tentar. Quero escrever a essa hora porque simplesmente é melhor do que sufocar isso aqui tentando dormir, e sonhar que tive pesadelos...

Há momentos na vida em que não sinto nada, absolutamente nada. Sou tragado pra um mundo totalmente vazio. Tão vazio como me sinto agora. Como se eu me jogasse de um penhasco bem alto sem paraquedas só pra sentir algo antes de morrer. Quando me sinto assim é exatamente isso o que tenho vontade de fazer: provocar-me algo. Queimar-me com certas lembranças doloridas. Sufocar devidos sentimentos insanos. Abafar um grito de liberdade que ecoa paredes a fora deste quarto. E enfim me entorpecer...

Eu sei que isso está parecendo melancólico e um tanto trágico, mas é toda verdade que sou capaz de (d)escrever neste momento. Me desculpe. Me imagine com uma garrafa de uísque, enchendo a cara, podendo sentir o cheiro da fumaça do meu próprio cigarro. É exatamente assim que me veria. É minha alma que deve estar assim neste momento. Sedenta de insônia. Mordaz. Feroz, e ao mesmo tempo silenciosa fitando-me como um abutre à espera de algo.

Puxo um último trago e apago o cigarro com se estivesse finalizando um ritual macabro de automutilação, e regeneração. Auto-ajuda-destrutiva?! Adoro isso, pode crer. Amanhã devo despertar melhor, tenha certeza disso! Provavelmente com alguma ressaca existencial - já ouviu essa? Tomarei um banho imaginando que a água leva embora todo pecado consumido, e me prepara para um novo dia. É tudo o que temos, um novo dia não é. Mas tem dias em que estamos cansados de tudo. E dá uma vontade de provocar uma explosão apenas pra iluminar o tédio em que nos encontramos. Ou correr pra bem longe, fingindo que conseguiremos fugir de nós mesmos por alguns instantes.

Levanto e vou ao banheiro mal podendo com o peso dos pensamentos. Me olho no espelho com a esperança de não conseguir me ver; queria que outro estivesse ali. Quem sabe uma versão melhorada dele. Que pena, tenho a impressão que o mundo não acabou, parece que o veneno ainda não surtiu efeito. Sento na cama e decido escrever - com uma sede incrível de vomitar tudo (exatamente tudo) que me vem à mente. Para me exorcizar. Acho que estou conseguindo, não acha? Sinto lágrimas rolarem mas não sou capaz de registrá-las. Como diz a música, "let it be"...

Olho para o lado a procura do resto da garrafa, quero um último trago antes de apagar. De repente percebo que a garrafa nunca existiu de fato. E eu nunca fumei de verdade. Não sei brincar com bombas. E tudo não passou de um daqueles sonhos que temos acordados antes de dormir... Agora acho que descansarei.


sábado, 23 de maio de 2015

SUBVERSIVO



Abrigo duas características distintas entre si. Enfrento as circunstâncias adversas e questiono os cenários, as vezes com altivez e bravura até. Mas também sei conter firmemente um impulso de discordar, quando acredito que a ordem precisa do respeito necessário para se prevalecer desta forma, na paz. Nesse segundo caso, note que associo conceitos como ordem, concordância e paz; embora na prática muitas vezes posso desconsiderar isso. Nessa dança de contrários, até me confundo e algumas vezes sofro para descobrir qual Jonas deve ganhar forma, qual Jonas quero que tome a frente de uma situação. As vezes acontece de a própria situação acabar escolhendo por mim... Ouvi a um tempo atrás que sou o que se pode chamar de subversivo. Não sabia o significado dessa palavra e fui consultar. Ao descobrir fiquei curioso com essa denominação. Embora concordo em vários aspectos...

Quando mais jovem, brigava ferrenhamente com o meu pai porque infelizmente eu não era o filho perfeito que ele tanto sonhava. Ser um filho passivo e aceitar o que ele ensinava como tudo o que se poderia, e deveria, aprender na vida, não deu muito certo. Isso me irritava a beça, de uma maneira que você não faz ideia. Por essa razão eu fui muito rebelde e desobediente. Eu retrucava as suas verdades, pois aquilo engasgado na minha garganta, que doía no meu peito e fazia meu corpo ferver de raiva também merecia ser exposto. Afinal, por que apenas ele podia gritar?! Se eu era o culpado (como sempre me sentia ser), eu tinha de me defender também; ou não é isso o que a justiça prega? Infelizmente nossos debates sempre desembocaram em brigas intensas, porque apesar de meu pai ter sido bom em alguns aspectos, ele foi também fechado demais em suas convicções; quase um ditador. E eu nunca suportei pessoas que sabem facilmente gritar suas verdades mas não tem coragem o suficiente de ouvir o que eu tenho a dizer. Penso que é preciso as vezes mais coragem para ouvir certas coisas do que falar.

Na fase escolar tive problemas com professores que se colocaram à frente da sala como seres imponentes; intocáveis; fontes únicas de sabedoria. Só eles podiam ter a palavra final. Só eles podiam saber todos os assuntos. Apenas eles decidiam qualquer coisa na sala, sem ter de ouvir a opinião do resto da classe; se éramos ali a maioria, mesmo hierarquicamente inferiores naquela situação, deveríamos ser respeitados e ter as nossas questões levadas em consideração também. Era eu lembrar disso que eu levantava a mão para questionar e a briga começava. Infelizmente aqueles que se sustentam em títulos nem sempre suportam perguntas; é permitido tudo, menos questionar a autoridade. Para mim as pessoas grandes estão abertas para colocar em xeque seus próprios conceitos se for necessário; um homem que não se auto-reavalia, nem se permite contrariar, é um tolo maior; e se este tiver poder nas mãos, torna-se ainda muito perigoso.

O tempo passou, vivi algumas experiências e sofri bastante, por isso mudei minha “abordagem”, por assim dizer. Hoje quando me deparo com uma situação estressante ao invés de sacar as armas, me desarmo. Como um radar, sei quando algo está vindo ao meu encontro. Antecipo a situação e consigo administra-la e me administrar melhor. Controlo a minha respiração. Conto até dez. Quando num impasse com outra pessoa, presto atenção ao que estou falando, a como estou falando, assim como penso no que gostaria de dizer. Procuro não incitar mais a discussão e mantenho o foco na conciliação. Mas também presto bastante atenção ao quanto a outra parte está aberta, para assim não trair aquilo em que acredito. E na pior das circunstâncias o aviso é único: saia de discussão. Antes de perder completamente o controle é melhor parar. (Eu tento parar) Prefiro sair como o perdedor ou como o errado se for o caso, mas já não pago para ver até onde a discussão vai dar. Nunca acaba bem.

Segurar um impulso é muito mais difícil do que suportar as consequências dele. Essa tarefa chega a ser física até. E saber discernir entre os dois polos é estágio para os mais evoluídos: quando conter determinadas emoções e quando se deixar agir. Para quem gosta de argumentar como eu, este é um bom desafio. Eu não quero com este post dizer que o correto seja um ou outro absolutamente, pois acredito que todo extremo pode ser perigoso. A mim me parece que o caminho do meio talvez seja a melhor pedida. Um caminho que contemple você saber ouvir o ponto de vista do outro, mas também se fazer respeitar o seu ponto de vista, sem para isso ter que impôr nada; as pessoas não mudam porque impomos as coisas, elas mudam por si só, quando querem - ou conseguem. Acho importante imprimirmos nossa opinião no mundo, mas brigar por isso... apenas em raras exceções.

Finalizo com dois conselhos. Primeiro. Tudo é energia. Toda energia procura vazão. Quando ela não é exteriorizada, é interiorizada, ou seja, se você não explodiu, certamente você implodiu. Então, se você não canalizar de alguma forma essa energia retesada em você, ao longo do tempo ela vai te adoecer de alguma forma, pode acreditar. Segundo. Eu sei que é difícil saber o que fazer (conter ou agir) quando o sangue realmente ferve. Nesse momento a gente quase não pensa, nem em nós, nem nas outras pessoas. Mas, para desencargo de consciência, eu sempre refleti assim: se após o ocorrido, já com a cabeça fria, eu não me arrepender de uma atitude tomada, sei que fiz a melhor escolha, dentro daquilo que me foi possível escolher. Aprendo com isso, e sigo em frente.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Parabéns! Ou não


Esse mês o blog está comemorando sete anos. Nessa data gosto de refletir os motivos que me levaram a criá-lo. Ou a continuar com ele. Me lembro de um determinado momento: quando resolvi compartilhá-lo pela primeira vez...

Antes disso eu era o único que lia o que escrevia. E isso bastava para mim. Os textos eram escritos em folhas brancas de cadernos velhos, secretamente guardados. As vezes apenas pensamentos caóticos; sentimentos de raiva. Outras vezes apenas para expor uma sensação de incompreensão pelos outros. Vindo à internet, tentei ao máximo manter o sigilo. Dificultei a sua localização criando um link bem incomum (www.ttibet.blogspot.com.br), o que também não facilitaria a memorização por quem o encontrasse por acaso. Isso reforçaria o anonimato, haja vista que aqui não havia fotos minhas nem meu próprio nome. Me intitulava "Tibet" apenas. Curiosamente, esse também era um lugar que queria conhecer.

No começo sentia muita fragilidade em escrever aqui. As vezes parecia medo até. Achava que o que escrevia era verdadeiro demais para ser exposto, e como no cotidiano me sentia um perfeito camaleão não queria que minha face original se apresentasse ao mundo; ostentava outras bem diferentes na época... Isso explica porque gostava de um seriado chamado "The Pretender", em que o protagonista tinha a capacidade de integrar qualquer tipo de personalidade, adotando diversas identidades. Me orgulhava dessa reserva em manter só para mim a melhor parte de mim mesmo. Isso me dava a sensação de superioridade perante o mundo. Aos outros eu podia ser qualquer um que me valesse a pena. Para me esquivar de brigas. Para estar em evidência. Para ser aceito. Para me sentir melhor... Me divertia em algumas proezas, embora no fundo não gostasse de agir dessa forma; no fundo sabia que não estava  mentindo apenas às pessoas mas também a mim mesmo. Havia uma vontade latente de ser um ser humano melhor. E descobrir que ser humano era esse... O blog deveria me ajudar nisso.

Um dia abri as portas e convidei os primeiros leitores para esse espaço. Me lembro da sensação que experimentei com os elogios. O sabor das críticas. As aspirações que tive e tenho desde então. Me senti respeitado. Admirado até. E desta vez era pelo que realmente era. Ou pensava que era. Embora meu objetivo fosse apenas me autoconhecer, busquei mesmo através desse blog descrever essa jornada. A jornada de um individualista que tinha o interesse genuíno de se tornar uma pessoa melhor. Aos poucos fui aperfeiçoando a gramática. Construindo textos mais detalhados. Precisos. Sempre elaborando o raciocínio com maior clareza e sinceridade. Quanto mais o tempo passava mais me sentia honesto comigo mesmo, e já não tinha mais medo de expor o que eu era; de falar o que pensava; de me exercer como desejasse. A partir daí foi um passo para compartilhá-lo nas redes sociais.

Desde então busco escrever sobre temas variados, publico vídeos, músicas e obras que acho interessantes; tudo para atrair o leitor. Quero o fazer pensar. Questionar sua vida. Reavaliar também a(s) sua(s) identidade(s). Hoje busco a verdade acima de tudo e afirmo que sou cem por cento sincero aqui. Ou pelo menos tento ser. Por essa razão devo confessar a você uma coisa. Acredito que esse blog acabou se tornando para mim o que um dia um lago foi para Narciso, na mitologia. Reflexo do ego. Já não sou capaz de distinguir o limite entre expor minhas ideias para auxiliar e expor minhas ideias para me envaidecer. Desconfio que as vezes escrevo apenas para mim mesmo, e que leio o que escrevi como alguém que verifica os próprios traços num espelho. Faço sem perceber; como um animal cego que lambe a própria calda achando ser sua cria.

Caberá a você então, leitor, a difícil tarefa de discernir até onde vai aproveitar sinceramente esse espaço. Ou censurar as razões dele.


   - Blog, blog meu, existe alguém mais interessante do que eu?




"Foi o orgulho que transformou anjos em demônios, mas é a humildade que faz de homens anjos." (Santo Agostinho)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Reflexões de um prisioneiro


Já vou advertindo que este post ficou grande! Tenha paciência e mantenha a mente aberta que eu te garanto que irá entender onde quero chegar. Conclusões após um período de clausura.


Há quarenta dias me propus o seguinte desafio: eu deveria ficar todo esse período sem utilizar a internet – de nenhuma forma –, não tomar café e não comer carnes. Afirmo, agora, que foi fácil. No começo pensei bem diferente. Confesso que nos primeiros dias eu sentia tanta dor de cabeça, dores no corpo inteiro; eu sentia tanta fraqueza que parecia que eu me arrastava pois o corpo pesava demais. E o humor? Um campo minado! Mas com o passar dos dias as dores foram cessando e o meu corpo foi dando sinais de estar se acostumando a sua nova fase. Os meus sentidos pareciam estar mais aguçados. Minha percepção parecia melhor. Me sentia mais inspirado. Convivia com uma estranha sensação de leveza, como se o corpo estivesse se desintoxicando de alguma coisa. Pelo menos por um tempo foi assim... Hoje me sinto realmente mais “limpo” – se é que posso expressar com essa palavra –. Mas não necessariamente pela ausência de internet, de café ou de carnes...

Esse desafio, que encarei como um sacrifício, tinha dois objetivos principais. O primeiro era o fato de eu estar incomodado – e já fazia um tempo – com alguns hábitos que traiçoeiramente foram se transformando em vícios na minha vida, me tomando minha liberdade – ou a crença que eu tinha disso –. Estava consumindo grandes quantidades de carnes e café diariamente e sentia dores de cabeça quando não consumia. Passava tanto tempo na internet que sentia falta enquanto estava desconectado; ficava preocupado com mensagens, recados, notícias que chegassem, consultando hora após hora o celular e desenvolvendo uma paranóia de poder estar constantemente perdendo alguma coisa. Garanto que era bem similar ao comportamento de um viciado. E isso era ridículo! Não entendia esse exagero. Eu sabia que eu poderia perfeitamente viver sem estar conectado à internet o tempo todo, ou tomando café toda hora ou comendo carnes diariamente. E eu estava disposto a me provar isso! O segundo objetivo desse desafio foi me renovar espiritualmente falando. Pedi ao Universo, através desse sacrifício, paz interior, elevação espiritual, porque me sentia estranhamente escravizado à matéria, por vezes esquecendo-me de valores transcendentais que sempre acreditei serem importantes. Eu queria me libertar um pouco. Buscava uma “tal” liberdade de algo que me prendia, e que eu não sabia exatamente o que era.

Esse período de “abstinência” coincidiu com as férias do trabalho, então pude me dedicar a me observar atentamente. O engraçado é que nos últimos dez anos consumi café em grandes quantidades diariamente e hoje não sinto mais nenhuma vontade de tomar. Da mesma forma com as carnes. Não sinto sua falta na minha alimentação. Penso seriamente até em manter uma dieta vegetariana para o resto da vida. A contrapartida, eu que não sou muito fã de TV e de doces, passei a comê-los diariamente – exageradamente – nas últimas semanas, enquanto assistia a seriados. Notei então que ao nos desvincularmos de certos vícios, sem que percebamos, as vezes começamos processos que vão culminando em novos vícios tão nocivos quanto os anteriores. É um paradoxo mesmo. Mais paradoxal ainda foi o receio que senti ao retornar hoje à internet, mesmo sentindo bastante saudade de algumas coisas como este blog por exemplo, e poder postar essas conclusões atingidas. Metaforicamente falando, era como se eu me refugiasse sozinho numa ilha isolada do mundo, ansiando rever algumas pessoas e já temendo retomar o contato com elas por medo de me escravizarem novamente.

Isso me fez pensar o seguinte. Até onde somos realmente livres quanto acreditamos ser? O que significa ser livre? Seria a liberdade um bem alcançável?

Foi então que percebi o que fizera. A grosso modo estava trocando seis por meia dúzia. Transformei a minha fantasiosa Shangri–La – essa minha ilha longe dos antigos vícios –, na minha mais nova prisão. Já estava criando os grilhões através de novos vícios; ficando horas e horas em frente à televisão comendo doces. O engraçado é que pedi ao Universo para me purificar, para me libertar de algo que sentia me prender, mas percebi que a única coisa que me prendera de fato o tempo todo eram as minhas próprias crenças. É isso o que fazemos com nós mesmos. Nos prendemos numa cela e procuramos desesperadamente sair, estando todo o tempo com a chave! Parar de comer carne, parar de tomar café, não acessar a internet, não assistir TV, não comer doces etc. não tem absolutamente nada a ver com liberdade. Liberdade é mudança de perspectiva. Vem de dentro para fora. E no meu caso a questão era pessoal mesmo. Eu nunca gostei de ser dominado por nada, por ninguém, sempre preferi me ver como alguém no controle de mim mesmo, indomável, livre, fugindo sempre daquilo que tentasse me possuir e me deixar com uma sensação de escravidão. Fossem sentimentos, fossem pessoas. E isso cedo ou tarde se tornara meu doce auto-engano, tornando-me carcereiro de minha própria cela. Acredito hoje que a liberdade é criada por nossas crenças. Da mesma forma a escravidão. Nada externo a nós tem poder suficiente para dar ou nos tirar a liberdade. Tomo como exemplo um homem atrás das grades. Ele pode ser mais livre do que você ou eu neste exato momento. O fato dele não poder sair da prisão não significa necessariamente que não seja livre, a única coisa lhe tirada foi o direito de ir e vir, que erroneamente reduzimos a interpretação à liberdade. Mas uma vez que esse cidadão seja capaz de pensar, de sentir, de sonhar, de criar, se ele o quiser as grades jamais o aprisionarão.

E isso nos faz pensar o seguinte também. Quantas pessoas estão neste exato momento, aqui fora, presas por vontade própria sem se dar conta? Posso apostar que não são poucas...

Para finalizar, uma coisa ainda ficava martelando na minha cabeça. Se fugi daquilo que me tornava escravo, por que ainda me sentia um? Se o meu objetivo primordial era a purificação e por isso me distanciei dos antigos vícios, por que criara novos?!

Foi então que veio o xeque-mate: porque talvez Vício e Arte sejam duas faces de uma mesma moeda, que as vezes nos confundem qual é qual. Se a vida é uma intensidade constante de forças violentas e viver é involuntariamente fazer parte desse jogo, o que nos permite sobreviver perpassa a arte ou o vício de qualquer maneira. Acabei percebendo que o que me fez fugir dos antigos vícios, me fez adentrar nos novos e escrever este post: a angústia! Essa natural inquietude que sentimos ao viver a vida, que pode ser tão desconfortante dentro de nós que precisa se converter em arte ou em vício. E qual é a diferença entre os dois? Enquanto um de alguma forma nos liberta, o outro nos escraviza!

Pergunto a você agora: és realmente livre? Continue...